Decisões

Conservar-se na dor é não despertar-se para os diversos
sons que os diferentes instrumentos tocam e nem permite-se
ver as infinitas cores nas calçadas, nas paredes, nos céus,
nas manhãs, nos entardeceres, na lua descomunal e não
usufruir das deliciosas sensações de uma carícia.

É ficar e não ver senão a própria limitação. Aprisionar-se a
velhas fotos, antigas mensagens guardadas, quase escondidas
de si mesmo, numa vazia e descrente espera.De quê?
Não se sabe.

É não ter expectativas e nem tomar decisões. Manter a todo
custo um relacionamento (de amor ou amizade) muitas vezes
unilateral e desgastado e seguir sem escolhas, sem decisões,
criando teias (in)seguras em rotineiras insatisfações.

E justificar, fazer discursos lindos, parecer bem resolvido e
passar a se relacionar com a dor como se ela fosse
imprescindível além de sua natural aceitação para a criação
de versos. É aceitá-la como companheira de vida, quando é
preciso rejeitá-la, exorcizá-la, enxergar nela uma estranha
inconveniente.

É preciso também eliminar a expectativa de que as pessoas
são perfeitas. Claro que isso requer habilidade. Aceitar que
as pessoas são imperfeitas e cheias de limitações é aceitar-se
também assim, mas é preciso ver-se assim
e enxergar-se como
gente linda com um singular jeito de ser.

...

E assim, com a decisão de queimar velhas fotos, eliminar
antigas mensagens que já não fazem mais sentido, enxergar
outras cores, ouvir diferentes sons, descobrir camufladas
sensações ... que hoje acordei e registrei isso aí.

Que eu também não fique só no discurso e que diariamente
possa continuar comemorando a vida com renovadas alegrias, principalmente por conseguir deixar de sofrer além do que
é inevitável.


Edna Feitosa
18 de abril de 2005 – 10.40h


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