Uma experiência inesquecível 
                                                    (07/08/2002)

        A semana passada recebi os alunos de volta das férias.
        Como é habitual, ficamos conversando um bom tempo sobre o que fizemos nas férias...
        Esperei que todos contassem (aproveitando pra lembrar da importância de saber ouvir) ...enfim, atividade normal...
        Normal, não fosse a imagem da garota Marina me olhando fixamente, com uma expressão silenciosa como se desejasse que eu perguntasse apenas a ela...
        Entendi isso e perguntei onde ela havia passado as férias e com quem...
        Ela se levantou do lugar, se dirigiu a mim, encostou sua cabecinha em meu peito e começou a chorar...
        Depois falou:
        -Passei uns dias em Jales, com todos os familiares.
        Sem entender, comentei:
        -Puxa! Mas isso é motivo de alegria...
        E por que você está chorando, Marina?
        E ela:
        -Professora, nós tivemos que nos reunir em Jales, porque tivemos que enterrar minha mãe lá.  Ela morreu na semana passada (com 34 anos de idade)...
        Bem, vocês podem imaginar o que senti na hora, não é mesmo?
        Eu a abracei e apenas disse que entendia o que ela sentia...
        Depois falei pra que ela fosse tomar água e, enquanto isso, conversei rapidinho com os alunos, pedindo a eles que nada perguntassem, mas que em casa orassem pra que a amiguinha se recuperasse rápido dessa dor.
        Passei um dia sem rumo...
        Tudo estava difícil...Confesso que fiquei meio desnorteada, não sabia direito como conduzir a aula.
        Resolvi brincar de "Pandora" com eles, apesar de minha "sem-graceza"...
        Durante essa brincadeira , as crianças pegam numa caixa (sem olhar, claro) alguma palavra (palavras que eles haviam escrito em dias anteriores) e têm que falar o que quiserem sobre ela.
        Apavorada vejo na mãozinha do Arthur a palavra
        MORTE... Gelei!
        Pensei: "puxa! justo hoje?"...
        Daí, vejo um sorriso nos lábios dele, olhando para a Marina...
        Foi quando ouvi:
        -Para mim, morte não é acabar tudo. Minha mãe ensinou que morte não existe...Quando gente grande morre primeiro, é porque Deus dá um jeito de mandar pessoas que a gente ama pro céu na nossa frente pra quando a gente for, não se sentir sozinho.
        Lágrimas escorreram do meus olhos.
        Nesse dia eu entendi a mensagem de Paulo Freire quando afirmou que
        "MESTRE É AQUELE QUE DE REPENTE APRENDE."

Edna Feitosa.  






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