ROGERINHO
       
        Em 1 982, eu morava na Vila Mariana, lecionava um período na Apae de São Paulo, o outro período em Mauá, Vila Mercedes e fazia faculdade na Luz (Belas Artes) à noite. Minha vida era uma loucura e ainda foi nesse ano que eu me casei e fui morar em Santo André.
        Bem, nesse ano de tanta correria, eu fui dar aulas numa quarta série e encontrei Rogerinho.
        Garoto franzino, calado,olhar penetrante e doce ao mesmo tempo...e, apesar de miúdo, eu soube que ele era um dos mais velhos da classe, pois já era a terceira vez que cursava a mesma série.
        Me interessei , de cara, por ele...Coisas que a gente não tem explicação...
        Fui à sua casa e deparei com um lugar muito úmido, pequeno, pobre, porém muito limpo...A mãe com obesidade mórbida E, Apesar da dificuldade física, fazia doces pra vender e o pai fazia alguns "bicos". ..Passavam sérias necessidades...Rogério, então com 13 anos, era o filho do meio, dos três de Dona Sebastiana, um doce de criatura...
        Bem, eu comecei a visitá-los com certa frequência e acabamos fazendo uma grande amizade . Comecei a levar Rogério para minha casa  junto com a família, para dar reforço escolar, nos finais de semana... Na verdade, embora ele já estivesse na quarta série , eu o alfabetizei...Comecei a levá-los para passear...Fomos à Tv Cultura assistir o Programa Bambalalão (e sempre ía junto, além do Rogério, os dois irmãos e o Renato, que era o amiguinho inseparável)... Levei-os  ao cinema, ao circo, Zoológico, enfim...(Muitas vezes eles dormiam em minha casa...).
        Bem, ao final do ano letivo, Rogerinho estava pronto pra ir, de verdade,  para a quinta série...
        No ano seguinte,  "dobrei" jornada na escola estadual , saí da Apae e tive tb que mudar de Escola...
        Bem, essa família continuou a me visitar e o "nosso personagem" indo cada vez  melhor nos estudos. Logo arrumou emprego de office boy no Banco Real...e continuou estudando.
        Eu me mudei aqui pro Interior e sempre recebia carta deles todos, principalmente dele e da mãe...
        Quando  terminou o colegial, ele me chamou para ser madrinha , mas eu não pude ir por causa da distância... (eu morava ainda mais distante da capital que hoje).
        Ele foi  prestando concursos internos no Banco, foi balconista, caixa...Se casou...Me chamou para madrinha e, infelizmente tb não pude ir, mas ele mandou filmar e colocou meu nome, como madrinha,  mandando-me  a fita depois...
        Logo em seguida trouxe a mulher (outra doçura de pessoa) pra eu conhecer.
        Continuou os estudos, terminou faculdade, foi sendo promovido no Banco e todo ano me visitando com o Renato (ex- aluno meu tb de 1982) a mãe e a esposa.  Depois com Renan, o filhinho mais velho e agora , já pai do João Pedro.
        Atualmente, ele é gerente geral do Banco Real, mora numa casa maravilhosa, em Santo André, construiu uma casa muito boa para os pais e os ajuda constantemente...Pagou cirurgia de redução de estômago para a mãe há algum tempo atrás.
        Em janeiro, virão novamente me ver, para minha felicidade...
        No final de 2002, quando vieram, Rogerinho pediu para conhecer meus alunos da quarta série e pediu-me permissão para falar com eles. Foi uma das maiores emoções que já tive...Ele contou a trajetória de sua vida e finalizou dizendo: "Nunca faltem um dia na aula dessa Professora, pois , mais tarde vocês lamentarão até um dia que tiveram a menos, nessa preciosa convivência!"...Eu não soube o que dizer...só chorei.
        ...E agora, aposentada (depois de 31 anos de magistério...comecei com 17 anos )...eu quis rememorar essa história...Quem sabe os Rogérios que passaram por minha vida, darão a força que eu preciso pra encarar que é hora de outras professoras... e que é minha vez de pintar, encarar esse novo desafio ... e que não dá pra chorar pelo que deixei de fazer, mas me alegrar pelo que fiz, apesar de ter errado tanto, mas também ter  amado tanto, me dado tanto, feito tudo o que valeu tanto  a pena...
        Hoje entendo a importância de parar quando se está no auge e não quando já não se produz mais...Tenho muito orgulho da profissional que fui e ainda vou me orgulhar muito da profissional em outras áreas que ainda quero me tornar ...essa é uma tarefa de casa que não posso  esquecer de fazer!

                                    Edna Feitosa
                    (2003- ano em que me aposentei)

 

 






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