Não
podemos fazer haicai exatamente como os
japoneses o fazem. Pra começar,
não temos os kandjis (ideogramas).
E acontece que alguns ideogramas são,
por si mesmos, tão belos e significativos
que constituem eles mesmos uma parte da
estética de um poema. Ademais,
nossa língua não é
composta de silabários, e sim de
fonemas. Nossa acentuação
é fixa, a deles flutuante.
É mais ou menos como aparência
física. Embora a cara de um japonês
tenha dois olhos, uma boca e um nariz,
é uma cara diferente da nossa.
Pensando assim, não não
há nada de estranho no abrasileiramento
do haicai, como não é nada
assombroso o nascimento de um mestiço.
No Brasil, o haicai ganhou rima e título
- coisas que o haicai japonês não
tem. Esses ganhos, entretanto, são
opcionais. Quem quiser usar título
usa, que não quiser não
usa. Um homem de boné ou chapéu
não deixa de ser um homem.
Quem quiser usar rima pode usar, quem
não quiser não usa. Uma
mulher que tem a bolsa da mesma cor do
sapato não fica defeituosa por
causa disso, pode até ficar mais
bonita.
Idem quanto à pontuação.
Podemos dispensá-la, ou então
encher nossas haicais de pontos de exclamação,
interrogação, reticências.
São jóias ou bijuterias,
que compensam a ausência do ideograma.
Você pode escrever haicai sem título,
sem rima e sem pontuação.
Fica ao critério de cada um. Mas
tem que entender que um haicai não
é sempre algo que cai do céu
prontinho. Ele pode ser retrabalhado,
até que fique bom. Nisso consiste
o trabalho de um escritor - em fazer e
refazer o seu projeto, até que
ele se torne verdadeiramente uma obra
de arte, digna de ser compartilhada. Enfileirar
besteiras às pressas, seja em três
ou em trinta linhas, não faz de
ninguém um bom poeta, a menos que
ele seja um gênio.
A propósito, no Japão o
haicai é popular, todo mundo sabe
fazer, há concursos de que o povo
participa ativamente. Mas também
pode acontecer que um grande haicaísta
leve meses, ou até anos, até
achar a palavra exata com a qual possa
terminar o seu minúsculo poema.
Claro que enquanto isso ele foi fazendo
outros haicais, às vezes com a
sorte de acertar na primeira, mas "aquele"
teve que esperar.
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