AULA 6 - O HAICAI E SEU ABRASILEIRAMENTO

Não podemos fazer haicai exatamente como os japoneses o fazem. Pra começar, não temos os kandjis (ideogramas). E acontece que alguns ideogramas são, por si mesmos, tão belos e significativos que constituem eles mesmos uma parte da estética de um poema. Ademais, nossa língua não é composta de silabários, e sim de fonemas. Nossa acentuação é fixa, a deles flutuante.

É mais ou menos como aparência física. Embora a cara de um japonês tenha dois olhos, uma boca e um nariz, é uma cara diferente da nossa. Pensando assim, não não há nada de estranho no abrasileiramento do haicai, como não é nada assombroso o nascimento de um mestiço.

No Brasil, o haicai ganhou rima e título - coisas que o haicai japonês não tem. Esses ganhos, entretanto, são opcionais. Quem quiser usar título usa, que não quiser não usa. Um homem de boné ou chapéu não deixa de ser um homem.

Quem quiser usar rima pode usar, quem não quiser não usa. Uma mulher que tem a bolsa da mesma cor do sapato não fica defeituosa por causa disso, pode até ficar mais bonita.

Idem quanto à pontuação. Podemos dispensá-la, ou então encher nossas haicais de pontos de exclamação, interrogação, reticências. São jóias ou bijuterias, que compensam a ausência do ideograma.

Você pode escrever haicai sem título, sem rima e sem pontuação. Fica ao critério de cada um. Mas tem que entender que um haicai não é sempre algo que cai do céu prontinho. Ele pode ser retrabalhado, até que fique bom. Nisso consiste o trabalho de um escritor - em fazer e refazer o seu projeto, até que ele se torne verdadeiramente uma obra de arte, digna de ser compartilhada. Enfileirar besteiras às pressas, seja em três ou em trinta linhas, não faz de ninguém um bom poeta, a menos que ele seja um gênio.

A propósito, no Japão o haicai é popular, todo mundo sabe fazer, há concursos de que o povo participa ativamente. Mas também pode acontecer que um grande haicaísta leve meses, ou até anos, até achar a palavra exata com a qual possa terminar o seu minúsculo poema. Claro que enquanto isso ele foi fazendo outros haicais, às vezes com a sorte de acertar na primeira, mas "aquele" teve que esperar.



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garota da foto: Mirella Luiza (filha da Edna)

 

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