| Tantas
são as lembranças que me vêm à memória
agora...
Quase chego a sentir o cheiro do lombo de porco recheado com a mesma
carne moída e bem temperadinha.
Esse lombo assim cheio e costurado com barbante era cozido, frito
e guardado em latas de banha, substituta da geladeira, sonho distante
naquela época...
Nós sempre brincávamos no mandiocal, no mato, no pasto:
eu, meus irmãos e primos e minha mãe nunca precisou
chamar pra avisar que a comida estava pronta no fogão de
lenha, sobre a chapa pra conservar tudo quentinho...
O cheiro do lombo sendo aquecido era como toque de quartel:
vínhamos em desabalada carreira e cada banho mais mal tomado
que o outro, sendo, muitas vezes devolvido um de nós pro
"Tiradentes" pra mais um bald´água...
...Minha mãe também fazia lingüiça e pão
caseiro que eu trocava com o pão de padaria da filha da minha
professora do primeiro ano escolar...
Que saudade eu sinto desse pão que naquela época eu
não agüentava mais ver.
Como era chique o pão de padaria...
O que eu nunca esqueço foi o primeiro "conosco"
que eu ouvi! Que palavra que eu achei tão feia...Só
podia ter vindo da metidinha da filha da Dona Rute, aquela professora
que tinha as narinas imensas e o pescoço curtinho...
Conosco... veja se aquilo podia ser mais bonito que : com nós
que eu falava direitinho e não caipirado como uns outros
meninos que colocavam um i onde não tinha e dizia com nóis...Eu
não! Mas ...conosco, isso não! Essa palavra feia eu
nunquinha ia falar...
Eu estava lembrando também do patinho que eu roubei de uma
menininha, vizinha nossa que tinha uma caixa redonda, embalagem
de chapéu, mas na época eu achava que já era
vendida assim cheia de brinquedinhos. E vinha a Maria Helena De
Haro com aquela caixa linda, verdadeiro tesouro...E tinha um patinho
lindo, de plástico que ela punha na água da bacia
e ele não afundava! Coisa muito chique!
Daí o capeta soprou no meu ouvido que ela nunca ia saber
que eu tinha pego aquela belezura e eu dei força a ele e
guardei o patinho dentro do colchão de paina...Nem brincar
eu podia pra minha mãe não ver, mas ela viu! Mãe
tem visão de raio x e radar quando tem que corrigir filho...
Daí ela, conhecendo o brinquedo da filha da vizinha e morta
de vergonha da filha "candidata a cadeião", teve
que me passar um corretivo, claro!
Com a calma de mãe quando está verde de raiva, olhou
com aquele olhar calmamente fulminante nos meus olhos que perderam
toda a direção e só me disse que nós
duas íamos lá devolver o patinho mas que eu deveria
dizer:
"-Eu vim devolver o que eu roubei de sua filha e prometo não
roubar mais nada de ninguém..." Era dizer isso, devolver
o patinho e voltar pra casa, mas se eu não falasse, apanhava
ali, na frente da Maria Helena De Haro e da mãe dela...
Droga! Cadê que sai voz numa hora dessas? Se apanhei? E na
frente de todos...
Cheguei a sentir nos olhos da minha amiga que ela teve um pouco
de dó, mas adiantava o quê ? E a vergonha? Minha amizade
encerrou com ela ali mesmo!
Nunca mais olhei pra aqueles olhos verdinhos que dava inveja. (não
bastava ela ter aquele patinho, ainda tinha os olhos verdes!).
Nessa época, eu devia ter uns sete anos e estava fazendo
catecismo...Minha mãe estava juntando as penuginhas mais
lindas, mais alvinhas das galinhas brancas (e tinha poucas) pra
pregar uma a uma nas minhas asinhas de anjo, da primeira comunhão.
Eu era, no dia, a anja mais linda, com as asinhas mais lindas, mas
era a dona de um pecado mortal: eu já havia praticado roubo.
Os
olhos da minha mãe me acompanhavam enquanto eu ia naquela
fila imeeeensa de anjinhos, todos de túnicas branquinhas
de cetim e asas, pra fazer a primeira confissão e tomar a
primeira hóstia...
No banco da igreja, minha mãe, meu pai, meus irmãos,
primos, tios, famílias dos meus coleguinhas de catecismo
e a Maria Helena dona do patinho e dos olhos verdes.
Eu andava e os olhos dela andavam comigo...Quando eu não
tropeçava nos olhos dela, tropeçava nos de minha mãe,
que sorria , assim tombando a cabeça de um lado, como se
estivesse toda orgulhosa da anjinha dela de asas de penugem colecionada
a custo! Parecia até que ela nem se lembrava que ali estava
uma ladra de patinho e que Deus ia ficar sabendo dali a instantes,
através do padre...
E eu andava meio que arrastando a conguinha branca e suava...e os
olhos da Maria Helena...e o confessionário se aproximando...O
suor escorrendo e tudo virou uma imagem só: a porta de saída
da igreja. Saí correndo dali, com as abençoadas asinhas
de penugem (aquela droga não soltava pois minha mãe
tinha feito serviço de mãe mesmo , pra não
soltar nunca!) e rumei (acho que voei...) pra casa...Desci a Rua
Coronel Militão em Tanabi (esse espaço de tempo eu
não morava no sítio, claro!) e entrei pela porta da
cozinha que era sempre só escorada com uma cadeira e me enfiei
no quarto da minha mãe que era o único que tinha porta
e taramela. Fechei e enfiei embaixo da cama com as malditas asas.
Nem cinco minutos depois, minha mãe estava me arrancando
debaixo da cama com asinha e tudo e, se alguém consegue imaginar
como um anjo chora quando apanha, eu tenho desenhadinho nas minhas
lembranças.
Nunca fiz primeira comunhão...
Um ano depois, meu pai faleceu...Há seis anos atrás
a minha mãezinha foi se encontrar com ele...
...Por que isso tudo agora?
É que estou sentindo medo de novo...
Parece que eu sinto que as pessoas grandes continuam exagerando
e agredindo em nome do que chamam de certo...
Pior é que eu não sei direito agora onde é
a porta de saída e nem tenho asas de anjo que me façam"voar
pra casa"...
Mais sério ainda é que nem a voz do meu pai deixando
claro que não estava de
acordo com nada daquilo eu consigo lembrar o som que tinha, pra
eu me sentir protegida...
...Tenho muitas outras lembranças de minha mãe e são
lindas!
E hoje, agora eu estou precisando tanto delas..
Saudade, se achegue! Faça ninho!
Por favor, ocupe o lugar do medo...
Edna
Feitosa
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