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Ingênuas
fantasias de gente grande
Hoje eu quero que todo dinheiro do mundo desapareça!
Que os homens comecem a trocar e repartir coisas, de acordo com
suas necessidades e os valores sentimentais.
Quem tiver sandálias e gostar de cavalgar, troque pelo
cavalo de quem prefere caminhar ao ar livre...
Que pintores troquem seus quadros por comida, teto, tinta, pincel,
telas...
Os fotógrafos troquem fotos por comida, câmera, filme,
metanol, tripé...
Quem gostar de voar, troque sua bicicleta por um ultra- leve de
quem gosta de pedalar ao vento.
Entradas de autódromos, cinemas, teatros, espetáculos
de dança, música, sejam pagas em bananas, casacos,
chocolates, remédios, arroz, trigo, leite, presunto...
para ser repartido entre os pilotos, atores, escritores, bailarinos,
músicos...
Que fossem abolidas coisas estúpidas como o boxe!!!
...Ah, eu quero tanta coisa hoje!
Sugestionar todo mundo pra que sonhe colorido.
Esforçar-me para tornar sem sentido leis e polícia.
Moral e concorrência.
Bolsa de valores e loteria.
Diluir a mediocridade.
Incentivar o bom gosto!
Desenvolver o bom senso (sagrada virtude) cada dia mais
Planejar as cidades. Pequenas para que não se tornem neuróticas.
Casas de cores claras, limpas, sem muros, milhões de flores
em todos os cantos...
Fios subterrâneos, para que os olhos não tropecem
neles ao ver o pôr-do-sol.
Grama ao invés de asfalto. Árvores em lugar de postes.E
holofotes nas árvores.
Casas com paredes de vidro para que a natureza se confunda com
o interior.
Lareiras para que hajam chaminés. Tapetes grossos para
que possamos afundar os pés e poltronas enormes, para que
possamos afundar os corpos ...
Destruir todo relógio do mundo. Só deixar no centro
de cada cidade um enorme relógio de sol, feito de mármore
salmon.
Se chover, se não houver sol, ele vai se tornar inútil.
Mas que importa?
O tudo é curtir a chuva atrás das paredes de vidro
ou então andar devagar sob a chuva fina ou ainda correndo
sob a tempestade. Deixar que a chuva cole a malha branca no corpo,
pese nos cabelos. Tirar as sandálias e soltar barcos de
papel na enxurrada.
Curtir o frio- sem- sol na frente da lareira ou o frio- com-sol
andando à toa pelas alamedas, pelos bosques, às
margens dos lagos e regatos, dentro de um casaco de veludo preto,
ou um suéter branco de listras vermelhas.
Ah! Hoje eu quero pessoas com roupas simples, de tranças,
franja ou com os cabelos de qualquer jeito. De sandálias,
de tamancos, de túnicas ... pessoas-alma. Todas com jeito
e rosto de criança.
Fora com os penteados e maquiagens complicados!!! (Deixar apenas
o batom e esmalte na cor salmon e colônias muito suaves,
que lembrem os campos em flor).
Hoje eu quero perdoar os chatos, os pobres de espírito,
os criminosos, os convencidos...
Abolir a pena de morte, não condenar ninguém. Não
existe gente totalmente má.
Transformar as penitenciárias em hospitais, do corpo e
da alma...
Fundir as armas do mundo e transformá-las em hospitais,
instrumentos cirúrgicos, câmeras fotográficas,
máquinas de costura, agulhas de tricô, tachos pra
fazer pamonhas (que eu adoro!) , formas pra bolo de milho, pra
cocada, doce de abóbora com coco, arroz-doce. E tanta coisa
mais.
Dividir terras pra que se plante trigo. Uva pro vinho, arroz pra
fazer com camarão.
Criar gado pro presunto e leite pra fazer queijo e comer com doce
de abóbora com coco, frango pra fritar com cebola e comer
quentinho.
Ah, eu quero serenatas com violão e flauta!
Trocar as fofocas por aulas de músicas. Muitos programas
de televisão, por sessões de balé, alguns
filmes intragáveis e novelas, por desenhos animados: Tom
e Jerry, Pernalonga, Turma da Mônica...todo o bando Disney...
Curtir a noite ao som de Burt Bacharah ou Enya, meditando ...
ou lá fora sob as estrelas... ao som de grilos, cachorros
e galos distantes...
Andar sem destino na madrugada e dizer bom dia ao lixeiro, ao
jornaleiro...
Que importa o tempo ou as horas nessas horas?
Substituir a cama da manhã por sessões de ver o
sol nascer e a correria da tarde por sessões de ver o sol
morrer.
Transformar cassinos em escolas de toda arte: pintura, fotografia,
escultura, literatura, artesanato, música, dança,
teatro...
Navios de guerras em hotéis e parques de diversões...circos
e pipoqueiros, vendedores de amendoins, de balões, de flores,
algodão-doce, cocadinha, sorvete e todos os outros vendedores
de felicidade, mesmo que ela seja passageira...
Me integrar com Mônica, Cebolinha, Pequeno Príncipe,
Zezé do Zé Mauro de Vasconcelos, Pateta, Calvin,
Garfield, Snoopy ... e todo o "bando" que for verdadeiramente
autêntico ...
Substituir os comerciais por músicas infinitas: Gal, Caetano,
Luiz Vieira, Fagner, Oswaldo Montenegro, Marisa Monte, Zélia
Ducan, Vinícius, Chico, Caetano, The Plathers, Bee Gees,
Carpentes, ABBA, Toquinho, Djavan, Bethania, Elis, Beatles, Simon
and Garfunkel, Capital,Zé Ramalho ... tanta gente mais.
Toda casa deve ter as Valsas de Strauss,ou "coisas"
de Bethoven,
Mozart, Tchaikovski, Lizt, Bach, Handel...e todo o "bando"...
Hoje eu quero festivais de folclore, exposições
de quadros, lançamentos de livros, saraus, recitais...
Eu sei que é utópico. Semi-impossível.
Eu nunca fiquei totalmente na terra. Meu mundo é meio flutuante.
E agora descobri que estou autorizada a sonhar muito mais pois
posso compartilhar meus sonhos, em plena sintonia, com gente que
também "não cresceu"... Gente a quem a
vida permitiu sonhar e transformar em fantasias de gente grande
as mais intensas ternuras.
Edna Feitosa
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