
Pólen de bondade
Temos em nossa cidade, vários grupos que prestam assistência às pessoas que moram nas ruas.
Há alguns anos eu faço parte de um deles. Não estou contando isso no sentido de divulgar algo que tenho obrigação de fazer, mas para compartilhar com amigos uma atividade muito importante.
Cada dia da semana, um grupo de umas cinco ou seis pessoas, percorre as ruas da cidade até de madrugada, servindo sopa, leite e pão para essas pessoas.
Antes dessa etapa do trabalho, têm pessoas que buscam doações em feiras, providenciam outros ingredientes e outras preparam a sopa.
Meu trabalho, com “meu grupo” é levar e preparar o leite, buscar o pão, preparar as cumbucas e utensílios e sair servindo.(Infelizmente o nº de pessoas tem aumentado muito).
Dessa experiência que já dura alguns anos, temos muitas histórias, embora jamais perguntemos nada sobre a vida de cada um. Hoje eu vou contar um episódio comovente.
Estávamos com o carro parado em frente à rodoviária (devia ser quase duas horas da madrugada) servindo sopa para prostitutas, andarilhos, enfim pra quem viesse comer, quando passou por nós um senhor muito bem vestido, dirigindo um lindo carro. Ele deu a volta e parou. Desceu e ficou nos olhando no cumprimento de nosso trabalho. Daí ele se aproximou e pediu uma cumbuca de sopa. Com naturalidade o servimos e ele foi alimentar-se, sentado no banco do carro.
Não pudemos deixar de observar que ele, após comer toda a sopa, parou com o olhar “perdido”, um longo tempo, até que levantou decidido, veio até nós, devolveu a cumbuca vazia e duzentos e cinqüenta reais. Apenas nos disse assim:
-Isso poderá contribuir um pouco com esse trabalho.
Foi embora e nunca mais o vimos.
Nada sabemos dele, mas ficou entre nós a emoção de saber que realmente existem pessoas que têm alma iluminada e, de graça, conseguem polinizar o mundo com bondade e ternura.
Edna Feitosa