Responda
rápido:
qual é
a diferença
entre ritual
e hábito?
Se conseguiu
responder sem
pensar, provavelmente
se enganou,
o hábito
atrapalhou seu
raciocínio.
Se pensar para
responder, talvez
não encontre
resposta satisfatória.
Pode, é
claro, consultar
o mestre Aurélio
e ver as definições,
mas não
vai ajudar muito.
Vejamos:
Hábito:
uso, costume;
aspecto; roupagem
de frade ou
freira; modo
padronizado
de pensar, sentir
ou agir, adquirido
e tomado em
grande parte
inconsciente
e automático.
Ritual: culto;
cerimonial,
protocolo, etiqueta;
relativo a ritos
(rito= conjunto
de cerimônias
religiosas que
consigna os
ritos a observar;
culto, doutrina,
seita).
E daí?.........
Vou
tentar dar uma
nova denominação,
a fim de traçar
um paralelo:
rituais são
hábitos
cuja utilidade
desconhecemos;
hábitos
são rituais
cuja utilidade
pensamos conhecer.
Dessa maneira,
quando falamos
de rituais autistas,
falamos, na
minha concepção,
de hábitos
cuja função
não conhecemos.
Batizamo-los
de rituais e
decidimos que
são não
funcionais.
Desde
a década
de 1950, quando
o autismo começou
a ser estudado
cientificamente,
que essa verdade
é verdade.
E já
se passaram
seis longas
décadas,
onde nos especializamos
a extinguir
rituais: se
não têm
função
alguma, então
não devem
existir. Gente
séria
demais, com
a melhor das
intenções,
ganhou notoriedade
como caça-rituais:
em pouco tempo,
conseguia extingui-los,
livrar a criança
desse “mal”.
Só não
conseguia melhorar
a situação,
a qualidade
de vida dessa
criança.
Preciso
da sua atenção
para uma mudança
importante de
paradigma. Vou
frisar, para
maior impacto:
rituais
autistas são
não só
altamente funcionais,
como necessários
ao desenvolvimento
do sujeito.
Tenho provas
vivas dentro
do projeto,
e posso argumentar
com você
sobre essa afirmativa.
Pense
numa criança
autista. Você
é uma
professora.
Ela está
sentada à
sua frente e,
de repente,
começa
a balançar
as mãos,
como dizendo
um duplo adeus,
abanando incessantemente.
Você lembra
o que lhe disse
a psicóloga,
a mãe,
a coordenadora:
rituais autistas
não têm
função,
você deve
tratar de ocupar
as mãos
dela com outras
atividades,
colocar alguma
coisa na mão
dela, chamar
a sua atenção.
Você faz
isso, ou tenta.
A criança
fica nervosa,
agitada, quer
balançar
as mãos...
No mínimo,
esse seu ato
recomendado
chamou a atenção
das outras crianças
para o fato.
No máximo,
você evitou
um treinamento
precioso, necessário
ao desenvolvimento
adequado. Siga
comigo o raciocínio:
A sua criança
começa
a abanar as
mãos,
desordenadamente,
num ritmo constante
e desengonçado:
coordenação
motora ampla
sendo treinada.
No cérebro,
neurônios
iniciam a comunicação,
uns com os outros,
tentando fechar
uma rede neuronal.
Todo movimento
automático
das mãos
e dos pés
é controlada
pela medula
vertebral, para
que o cérebro
fique livre
para outras
funções
mais nobres.
Não precisamos
pensar para
andar, pular,
correr, bater
palmas, mas
crianças
pequenas precisam.
Crianças
pensam para
poder falar.
Essa automatização
necessita de
treinamento,
todos treinamos
para isso. Autistas
precisam treinar
mais. É
o que tentam
fazer.
Em vez
de interromper,
você para
na frente dela
e imita seus
movimentos.
Faz isso durante
um tempo, até
que ela perceba
o que você
está
fazendo: percepção.
Então,
você começa
a alterar os
movimentos da
mão,
de intensidade,
de direção,
e ele começa
a tentar acompanhar:
imitação.
Em pouco tempo,
os movimentos
se tornam coordenados,
suaves, repetitivos:
coordenação
motora fina.
Talvez
não aconteça
da primeira
vez, ele não
está
acostumado a
esse tratamento,
esperava ser
contido. Não
foi, estranhou,
não colaborou.
Mas, na terceira
ou quarta vez,
ele vai colaborar,
participar do
jogo que você
está
propondo. Estabelece
com você
uma relação
de confiança,
constrói
um vínculo
com você.
Dentro
do seu sistema
nervoso central,
a rede de neurônios
que constantemente
tinha sido impedida
de se formar
pela tentativa
de se extinguir
o “ritual”
finalmente se
consolidou.
Os movimentos
tentados foram
automatizados,
estão
agora sob o
comando da medula,
e ele não
precisa treinar
mais. E esse
“ritual”
extingue-se
naturalmente.
Com
um ganho adicional:
o vínculo
criado deu a
ele confiança
de tentar treinar
outros desses
rituais, acelerar
seu desenvolvimento,
liberar áreas
do cérebro
para outras
atividades,
como falar,
comunicar-se,
alfabetizar-se,
socializar-se.
No
término
de cada dessas
sessões,
eu sempre dizia:
“muito
bem, parabéns,
você foi
ótimo!”:
compreensão
verbal. Tentava
um abraço,
quase sempre
conseguia. Às
vezes, depois
de umas poucas
tentativas,
conseguia uma
resposta: performance
cognitiva.
Num simples
exercício
de humanidade,
de empatia,
você facilitou
o desenvolvimento
da sua criança
em pelo menos
cinco itens
do desenvolvimento,
os cinco relacionados
à coordenação
motora e visual.
Com sorte, também
os outros dois,
relacionados
à fala
e sua compreensão.
Em
nossas futuras
conversas, falaremos
de outros “rituais”
e em como o
método
da aceitação
e imitação
melhora a qualidade
de vida das
nossas crianças
autistas.