Ele
a observou dormindo, depois de uma noite em claro ...
Já era costumeiro esperar os primeiros raios da manhã,
em vigília silenciosa.
Quando os prematuros tons de azul surgiam no esquadro da janela sempre
aberta,
os olhos dela pareciam entregar-se à uma paz dolorosa, como
que resultasse do medo de não amanhecer uma vez mais ...
Havia um profundo suspiro, anunciando a hora de dormir ...
Ele observou sua boca pequenina, dona do sorriso mais lindo que ele
conhecera em
toda sua vida. Imaginou-a rindo como antes, rindo das pequenas mazelas,
fazendo
graça e achando graça em tudo.Um espírito como
o dela jamais deveria perder o viço,
pois deveria ser pecado empalidecer a alma colorida de uma mulher
tão vibrante como aquela!
Mas ela já não sorria.Aliás,demonstrava certa
surpresa quando ouvia a risada de alguém.
Erguia o arco das sobrancelhas e parecia apurar os ouvidos,como se
quisesse descobrir a mágica daquele som que já não
sabia reconhecer, que talvez ecoasse em seu peito como um certo desrespeito,
um travo de indiferença ou de desdém ...
Ele observou suas mãos delicadas agarradas às dobras
do lençol que lhe cobria o peito.
Dedos tão magros,tão frágeis e brancos que davam
medo ... .Queria toma-las nas suas,
mas temia toca-las, então, suave e gentilmente as beijava longamente,
quase não conseguindo conter a emoção de expressar
um carinho que passaria indiferente, que ela sequer perceberia e nem
poderia retribuir ....
Ah, inexorável tempo a devorar pedaços da gente !, lamentou
, tocando a cabeleira prateada de sua adorável companheira
de uma vida inteira, de bons e maus momentos, de jornadas áridas
sobre areias desérticas, de passeios enluarados, de lutas,
derrotas e vitórias.
Uma lágrima rolou de seus olhos cansados e foi depositar-se
sobre os lábios dela, talvez a traduzir o beijo que ele quisera
roubar, talvez a simbolizar palavras nunca mais repetidas ...
Inexplicavelmente, os olhos dela se abriram de repente, e num lampejo
raríssimo de compreensão e de profundo afeto, ela esboçou
um mágico sorriso, enquanto procurava as mãos dele entre
as pregas do lençol imaculadamente branco .
Ele chorou abertamente, enterrando a cabeça em seu peito, repetindo
" eu te amo!,eu te amo!, eu te amo!", numa desesperada ânsia
de fazer-se entender.
Como que num milagre, ela afagou seus ralos cabelos brancos num gesto
quase imperceptível, realizando um movimento quase impossível,
e sussurrou qualquer coisa difícil de entender.
Foi então que ele a observou pela última vez, enquanto
ela também o observava atenta e ternamente, e ambos souberam,
cada um a seu modo, que o amor seria eterno para sempre ... .