Deixei o carro um pouco distante, na avenida, e caminhei apressada pela

calçada vazia, carregando um enorme prato de doces variados.
Faltavam cinco minutos para meia-noite !
Àquela hora, meus pais deveriam estar aborrecidos com o meu atraso,
assim como eu já os havia aborrecido ao esquecer o prato de doces em casa...
Porém, quando contornei a esquina da igreja, não pude deixar de observar
uma mulher morena, magrinha e maltrapilha, sentada na soleira de uma porta
encardida, abraçada a duas crianças pequeninas : um menino e uma menina.
Senti que meus passos perderam o compasso, retardando a marcha espontâneamente.
A garotinha, percebendo meu olhar, sorriu de volta, enquanto apontava para mim,
mostrando-me para aquela que, embora tão criança!, deveria ser sua mamãe.
A mulher, de traços delicados e olhar tristonho, esboçou um breve sorriso, prestando
atenção aos ponteiros do relógio que beiravam o estardalhaço das doze badaladas.
Sem me dar conta, parei ao vê-la retirar do bolso uma tira de pano alvejado,
com a qual embrulhara um pedaço de pão amanhecido ...
"O que pretende?", pensei.
Com a solenidade das grandes celebrações, a mulher cortou o pão em
cinco pedaços, guardou um deles de volta no pano, deu uma fatia para
cada filho, separou a sua e..., para meu espanto, estendeu um pedaço para mim!
O grande relógio começou a vibrar, anunciando a meia-noite !
Contra o céu escuro, a porta enegrecida, aquela cena simbolizava o presépio
vivo, o Amor estendido nas mãos de uma pobre mulher, muito mais rica e mais sábia do
que eu, do que tantos, do que a maioria..
Com olhos cheios de lágrimas, aceitei o pão e, enquanto esperávamos a chegada
do marido que estava fazendo a última ronda à caça de latas e papelão,
eu lhes ofereci os doces mais deliciosos do mundo,
porque tinham o sabor da solidariedade que me beneficiava,
enquanto era eu que aprendia a gratidão.

Deixe este amor contagiar você.
FELIZ NATAL !



14/12/05 - 21:04h


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