| Boto das águas pardas |
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Sou boto das águas pardas, me escondi
por entre as pedras,
atravessei
muitos rios e fui chegando bem manso
pra seduzir
a donzela dos meus sonhos de criança...
Era menina
tão linda, de cabelos cacheados,
grandes
olhos inquietos, profundos, desconfiados,
ombros
densos como ondas que batem bem junto à praia,
braços
longos hasteados, flores de mãos entreabertas,
corpo estreito,
esculpido, em curvas de precipício,
onde qualquer
andarilho por mais exímio que seja
não chega
à fonte encantada, tão secreta ela se esconde...
Pois a menina
donzela, depois de muito esperar
que o
príncipe lhe chegasse, um dia, para casar,
adoeceu
de tristeza, sem saber por que razão,
sentindo
um peso infinito do lado do coração,
e pensou
que ia morrer de fatal melancolia,
definhando
e entristecendo sempre mais a cada dia...
E eu, o
boto das águas,
que cheguei
devagarinho,
fui nadando,
fui nadando,
até a
praia sozinho,
e vi que
a menina estava,
ali chorando,
coitada,
me aproximei,
dei-lhe um beijo,
que a
deixou apaixonada...
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