Boto das águas pardas


Lucimar Luciano de Oliveira



Sou boto das águas pardas,
me escondi por entre as pedras,
atravessei muitos rios e fui chegando bem manso
pra seduzir a donzela dos meus sonhos de criança...
 
Era menina tão linda, de cabelos cacheados,
grandes olhos inquietos, profundos, desconfiados,
ombros densos como ondas que batem bem junto à praia,
braços longos hasteados, flores de mãos entreabertas,
corpo estreito, esculpido, em curvas de precipício,
onde qualquer andarilho por mais exímio que seja
não chega à fonte encantada, tão secreta ela se esconde...
 
Pois a menina donzela, depois de muito esperar
que o príncipe lhe chegasse, um dia, para casar,
adoeceu de tristeza, sem saber por que razão,
sentindo um peso infinito do lado do coração,
e pensou que ia morrer de fatal melancolia,
definhando e entristecendo sempre mais a cada dia...
 
E eu, o boto das águas,
que cheguei devagarinho,
fui nadando, fui nadando,
até a praia sozinho,
e vi que a menina estava,
ali chorando, coitada,
me aproximei, dei-lhe um beijo,
que a deixou apaixonada...
 
 
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fomatado por Sandra Dantas
dantas@orinet.org.br



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