Amo
a Tomiko, amor velho e manso. Amo a Tomiko como quem ama
uma ikebana, um bonsai, um haikai. Ela é pura simplicidade
nipônica. Pois a Tomiko, no dia mesmo em que ingressei
na idade do sexo, isto é, quando me tornei Sex/Age/nário,
telefonou-me com uma surpreendente informação
que, de imediato, transformou-se em desafio. Disse-me que,
no Japão, quando um homem faz 60 anos, ele compra
um blazer vermelho. Antes dessa idade ele não tem
direito a essa cor atributo dos deuses. Somente com
os 60 anos essa liberdade lhe é concedida. Quem tem
permissão para usar o vermelho tem permissão
para tudo.
Por aqui é justamente o contrário. À
medida que envelhecemos as cores devem ir ficando sóbrias
e tristes. Esse costume, eu acho, tem a ver com a nossa
idéia de que o velho está a um pé da
sepultura, e que é bom ir deixando os vermelhos,
azuis e amarelos para trás, assumindo a gravidade
de quem vai se encontrar com Deus, o mesmo que criou o arco-íris
e as suas sete cores, mas que nunca se veste de amarelo
com bolas roxas.
A moda que a sociedade escolheu para os velhos é
uma 'preparatio mortis'. Outra não é a razão
por que, em certas regiões da Península Ibérica
e da Itália, as mulheres velhas e viúvas (é
costume geral que os homens morram primeiro) se cobrem de
negro da cabeça aos pés, lúgubre imitação
das vestimentas dos padres e dos urubus, especialistas em
cadáveres. Com suas roupas negras, elas estão
proclamando: "Deixei a vida ! Abandonei o amor ! Que
nenhum homem se atreva a me desejar!".
O costume chegou até nós de forma atenuada,
mas chegou. Em tempos não muito distantes, o pudor
e o respeito exigiam que as senhoras, a partir dos 50 anos,
usassem vestidos tipo tubinho, indo até os tornozelos,
golinha fechada no pescoço, mangas compridas, azul
com bolinhas brancas, e birote. Também os homens
de respeito tinham que andar sempre de paletó, colete
e gravata, obrigatoriamente de cores sóbrias. Blazer
vermelho só em bailes de carnaval e no manicômio.
Mas eu resolvi comprar o tal blazer vermelho. Tenho prazer
em ver a cara espantada dos outros. Resolvi mas não
cumpri. Faltou-me coragem. Aí fomos viajar, eu, minha
mulher e um casal de amigos, Jether e Lucilia. Gente maravilhosa.
Basta dizer que somos capazes de viajar um mês inteiro,
no mesmo carro, sem jamais nos irritarmos uns com os outros.
Concordamos até sobre a hora de levantar. O Jether
já fez 70 anos. Mas quem vê não acredita.
Elegante, cabelo preto, pele lisa, topa tudo, sobe morro,
entra no mato, toma banho de cachoeira, mergulha em lago
de água gelada e a mulher dele não
fica atrás. Jether e Lucilia são adolescentes.
Pois fomos a Berlim e ficamos hospedados na casa do filho
deles, Luiz, que mora lá faz 20 anos. Numa bela manhã,
para o café, aparece o Luiz com um lindo blazer,
finíssimo, cor de vinho, bordeaux. A antiga decisão
se acendeu dentro de mim. O Luiz me disse que comprara aquele
blazer numa casa de roupas usadas. Terminamos o café
e lá fomos atrás do blazer vermelho. Encontrei
um lindo, novíssimo, baratíssimo (...), era
um número menor que o meu, entrava muito justo. Mas
ficou perfeito para o Jether. Fiquei logo com inveja: ele
com o blazer, eu sem blazer. Mas aí veio o desapontamento:
ele não comprou o blazer vermelho embora achasse
linda a cor de vinho. Alegou que não combinava com
a sua idade. Não ficaria bem. Os outros estranhariam.
Os outros: a sociedade tem um lugar preciso para os velhos.
Antigamente dizia-se de um negro bom: "Ele conhece
o seu lugar". Coisa parecida se pode dizer do velho
bom: "Ele conhece o seu papel", o papel que as
gerações mais novas lhe atribui. Os jovens
acusam os velhos pais de serem quadrados. Com isso querem
dizer que os pais não compreendem os seus valores,
os seus gostos estéticos, os seus hábitos
sexuais, as suas músicas. Portanto, é inútil
conversar com eles.
Agore imagine que o pai ou a mãe de algum jovem,
de repente, em decorrência de um acidente vascular
cerebral, virasse a cabeça, começasse a gostar
de rock, passasse a freqüentar barzinhos, trocasse
as roupas antigas pelos jeans e as cores jovens e comprasse
um conversível o que (a) aconteceria? O filho
ficaria feliz com o fato de o pai ou a mãe ter deixado
de ser quadrado? De forma alguma. Cobrir-se-ia de vergonha.
É só na cabeça que o pai e a mãe
não devem ser quadrados. Na vida prática,
o certo é que sejam quadrados. Velho que não
é quadrado, na prática, é motivo de
embaraço e vergonha.
Estou lendo de novo o livro da Simone Beauvoir intitulado
A Velhice. Terrível. A sociedade tem um lindíssimo
ideal para os velhos: cabelos brancos, ricos em experiências,
pacientes, sábios, tolerantes, perdoadores. A sociedade
lhes atribui virtudes de seres angelicais muito diferentes
dos seres humanos normais. Os direitos comuns a jovens e
adultos, os velhos deixaram de ter. Diz a Simone: "Se
os velhos apresentarem os mesmos desejos, os mesmos sentimentos
e as mesmas exigências dos jovens, o mundo olhará
para eles com repulsa: neles o amor e o ciúme parecem
revoltantes e absurdos, a sexualidade é repulsiva,
a violência, ridícula".
Mas a verdade sobre os velhos foi Marcel Proust quem disse:
"Um velho é apenas um adolescente que viveu
demais". No corpo de um velho continua vivo um adolescente.
A sociedade tudo faz para se livrar desse intruso inconveniente.
Esconde-o atrás de uma máscara sorridente,
mata-o secretamente e enterra-o num túmulo de hipocrisias.
Mas o adolescente ressurge da morte ao terceiro dia.
Hoje portanto, convido você, classificado como velho,
a soltar o adolescente que mora no seu corpo. Faça
uma coisa insólita, proibida, que horrorizaria os
jovens. Vá com a sua mulher a um motel. Compre uma
cueca, jovem, colorida. Compre uma calcinha sexy, com rendinhas.
Vá a um barzinho, meta-se no meio dos moços.
Cancele sua viagem para Fátima: prefira a chapada
Diamantina ou vá nadar em Bonito. Compre jeans, tênis
e camisetas. E, se você tiver coragem, compre um blazer
vermelho. Eu comprei e vou usá-lo. Depois descobri
que o Jether não comprou só pra não
despertar suspeitas. O adolescente dele está sempre
solto. Jesus Cristo ressuscitou dos mortos. Aleluia!
http://rubemalves.uol.com.br/
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