Na floresta de Sariã viviam animais de todos os portes e temperamentos.
Alguns ferozes, ágeis, e outros mais acomodados e dóceis. Havia também
uma grande variedade de aves e répteis.

   Conta-se que entre eles destacava-se um passarinho muito querido pelos
companheiros de floresta. Era dócil e diligente. Depois de um prolongado verão,
com tantas folhas secas cobrindo o chão, irrompeu na floresta um pavoroso e incontrolável incêndio. À medida em que o fogo invadia o seu interior, os moradores
de Sariã fugiam espavoridos. Os mais vagarosos eram alcançados pelo fogo
e acabavam fenecendo antes de sair do seu habitat. O fogo ameaçava
impiedosamente destruir as árvores seculares e osbosques tranqüilos e acolhedores.
   Vendo o que se passava, o passarinho amigo viu-se numa situação de verdadeiro desespero. Mas não perdeu muito tempo. Saiu voando em direção ao rio, onde
mergulhou para depois sair voando sobre as chamas. Com a água conservada
nas penas aspergia o fogo, na tentativa de apagá-lo. Ia ao rio e voltava
incessantemente, repetindo essa fatigante operação dezenas de vezes, sem desfalecimento. Tudo era inútil porque as labaredas, cada vez mais violentas,
tomavam proporções sempre maiores. O passarinho, entretanto, não se cansava e
nem desistia. Um chacal indolente observou, irônico:
   - Companheiro, que desmedida tolice está cometendo? Então acha você que, com
essas poucas gotinhas d'água que leva nas penas, vai conseguir apagar o volumoso incêndio que invade todo o mataréu?
   - Bem sei que a minha contribuição é insignificante e fraca diante das colunas de
fogo que aniquilam a nossa querida habitação - disse o passarinho.
   - Não posso, porém, fazer mais do que faço. Eu quisera poder me desdobrar
muito mais, contudo, não posso. Assim, dentro das minhas possibilidades
estou cumprindo o meu dever.





   Nesse mundo envolto em chamas somos, particularmente, semelhantes ao passarinho
de Sariã. Não conseguiremos combater as labaredas destruidoras da violência,
do desamor e da indignidade que ameaçam destruir a nossa tranqüilidade, harmonia
e segurança. Entretanto, onde cair nossa gota de serviço, ela cumprirá sua missão.
O importante agora não é discutir se o fogo vai ou não ser extinguido, se a
contribuição pessoal que prestamos será valiosa, mas o que na realidade importa
é que cada um de nós cumpra o seu dever de lutar por um mundo melhor,
mais digno e fiel transmissor da paz e da harmonia.





Malba Tahan

Livro: "Lendas do Céu e da Terra"
















































































































Editada em:
05.10.2001










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