PINTANDO E BORDANDO A VIDA

Palestra organizada e apresentada por Sérgio Avelhaneda
Na Sociedade Allan Kardec de Estudos Espíritas de Birigui, SP
12.03.2006.

Quando eu era pequeno, minha mãe costurava muito.
E eu me sentava no chão, olhava e perguntava o que ela estava fazendo.
E ela respondia que estava bordando.

Todo dia eram a mesma pergunta e a mesma resposta.
Eu observava seu trabalho de uma posição abaixo de onde ela se encontrava sentada e repetia:
"Mãe, o que a senhora está fazendo?
" Dizia-lhe que, de onde eu olhava, o que ela fazia me parecia muito estranho e confuso. Era um amontoado de nós e fios de cores diferentes, compridos, curtos, uns grossos e outros finos.

Eu não entendia nada.

Ela sorria, olhava para baixo e gentilmente me explicava:
"Filho, saia um pouco para brincar e quando terminar meu trabalho eu chamo você e o coloco sentado em meu colo.

Deixarei que veja o trabalho da minha posição."

Mas eu continuava a me perguntar lá de baixo:
"Por que ela usava alguns fios de cores escuras e outros claros?"
"Por que me pareciam tão desordenados e embaraçados?"
"Por que estavam cheios de pontas e nós?"
"Por que não tinham ainda uma forma definida?"
"Por que demorava tanto para fazer aquilo?"

Um dia, quando eu estava brincando no quintal, ela me chamou:
"Filho, venha aqui e sente em meu colo.
Eu sentei no colo dela e me surpreendi ao ver o bordado.
Não podia crer. Lá de baixo parecia tão confuso. E de cima vi uma paisagem maravilhosa. Então minha mãe me disse:

"Filho, de baixo, parecia confuso e desordenado porque você não via que na parte de cima havia um belo desenho.
Mas, agora, olhando o bordado da minha posição, você sabe o que eu estava fazendo."
Muitas vezes, ao longo dos anos, tenho olhado para o céu e dito:

"Pai, o que estás fazendo?"
Ele parece responder:
"Estou bordando a sua vida, filho."

E eu continuo perguntando:

"Mas está tudo tão confuso... Pai, tudo em desordem. Há muitos nós, fatos ruins que não terminam e coisas boas que passam rápido. Os fios são tão escuros.

Por que não são mais brilhantes?"
O Pai parece me dizer:

“Meu filho, ocupe-se com seu trabalho, descontraia-se, confie em Mim... •Eu farei o meu trabalho”.

- Um dia, colocarei você em meu colo e então vai ver o plano da sua vida da minha posição.”••Muitas vezes não entendemos o que está acontecendo em nossas vidas. É como vermos alguém bordando ou pintando de um ângulo baixo”.

As coisas são confusas, não se encaixam e parece que nada dá certo.

É que estamos vendo o avesso da vida.

Do outro lado, Deus está bordando... Está pintando...

Que Deus faça de nossas vidas um "lindo bordado" ou uma linda pintura.

Estou contando isso pra falar da nossa dificuldade de entender a vida, de saber o que é que Deus espera de nós.

Afinal quem somos nós?

Os homens são Espíritos destinados à angelitude. Foram criados simples e ignorantes e gradualmente desenvolvem suas potencialidades e virtudes.

Por muito tempo os seres viveram os instintos em sua plenitude.

Atualmente, deixam de forma paulatina a vida instintiva e pautam seu atuar pela razão.

No lento processo evolutivo, alguns antigos vícios perdem sua força. Em seu lugar, algumas novas virtudes vicejam.

É no trato com os semelhantes que o homem toma contato com sua realidade espiritual.

Os embates do dia-a-dia tornam possível ao ser humano perceber suas fraquezas.

E ciente delas, pode então se dedicar ao seu combate.

Uma das falhas morais bastante comuns na humanidade atual é a inveja.

São Tomás de Aquino definiu esse vício como a tristeza que se tem em relação às coisas boas dos outros.

O invejoso simplesmente se sente mal porque o próximo tem sucesso.

Não há necessidade de que algo lhe falte. Ele apenas se considera diminuído com a grandeza alheia.

Na realidade, por vezes se perdoa ao semelhante mais facilmente um erro do que um acerto.

É mais fácil auxiliar quem cai do que suportar a vitória do outro.

Ante a fome e a enfermidade, não tardam mãos que auxiliam.

Os benfeitores, sob o prisma material, sempre ocupam lugar de realce.

O auxílio aos miseráveis pode propiciar, de algum modo, a satisfação da vaidade.

Bem mais difícil é ser feliz com a felicidade alheia.

Perante alguém que vence na vida, a animosidade com freqüência torna-se acirrada. Não faltam fiscais e acusadores de alguém obtém algum sucesso.

Muitas vezes ouvimos a respeito de quem enriquece: "deve estar roubando!"

Na escola, o aluno que obtém boas notas não raramente é objeto de maldosas observações.

Ele ganha apelidos grosseiros e sofre comentários pouco generosos.

Comenta-se que cola, que goza de favoritismos.

A inveja está muito presente em nossa sociedade.

A vontade de apontar os defeitos alheios é um indicativo desse vício em nós.

Trata-se de uma fissura moral bastante freqüente e reveladora de grande mesquinharia.

Prestemos atenção em nosso comportamento.

Apliquemos firmemente a vontade em alijar de nosso íntimo esse triste defeito.

Ser caridoso não é apenas amparar a miséria.

Ser feliz com a felicidade alheia também é uma forma de caridade cristã.

Valorizemos as conquistas e as virtudes dos outros.

Somos todos companheiros na imensa jornada da vida.

O clima psíquico da terra é fruto da soma da vibração de todas as criaturas que nela habitam.

Todos os homens têm a ganhar com a felicidade dos semelhantes.

Quando alguém se eleva, com ele se ergue toda a humanidade.

Quando alguém cai, é prejuízo na economia moral do planeta.

Alegremo-nos com as vitórias de nossos irmãos.

Ao vencerem, eles não nos tiram nada.

Muitas vezes dão preciosos exemplos, que podemos seguir.

Sejamos solidários nas dificuldades do próximo.

Mas participemos também, sinceramente, de seus júbilos.


O que nos faz mudar? O que faz a gente ver a vida de uma maneira diferente?


O gabinete daquela escola de ensino médio se convertera, por alguns momentos, em palco para uma cena constrangedora.

Um aluno de 16 anos de idade estava ali, sentado, cabeça baixa, pensamento em desalinho, aguardando a sentença final.

Os pais, desolados, olhavam em silêncio para o filho, sem saber o que dizer
diante daquele momento acerbo.

Vários de seus professores já haviam dado seus depoimentos, todos
desfavoráveis ao jovem rebelde.

Se o garoto fosse expulso seria um peso a menos na sua árdua obrigação de
ensinar...

Se se livrassem daquele estorvo sua tarefa ficaria mais leve, talvez pensassem alguns daqueles educadores.

O silêncio enchia a pequena sala, quando chegou o último professor para dar seu parecer sobre a questão: era o professor de física.

Era um homem maduro, lúcido, educador por excelência, sentou-se e, antes de dizer qualquer palavra, olhou detidamente nos olhos de cada uma daquelas criaturas ali sentadas, e sentiu-se extremamente comovido diante da situação.

Como poderia ajudar a resolver a questão sem prejuízo para o seu aluno?

Afinal, para aquele nobre mestre, expulsar um aluno seria decretar a própria
falência como educador.

Então, ele olhou carinhosamente para a mãe e perguntou: O que está havendo?
O que aconteceu para que a situação chegasse a esse ponto?
Tamanha era a vibração de ternura que emanava da voz suave do educador, que
a mãe se sentiu amparada na sua desdita e decidiu falar.

Olhou com afeto para o filho, e, num tom de extremado carinho disse: Meu filho!

O jovem, diante da pequena frase que ecoou em seu íntimo com mais força do
que mil palavras de reprimenda, desatou a chorar...

Chorou e chorou, compulsivamente...

A comoção tomou conta do gabinete e as lágrimas rolaram quentes dos olhos daqueles pais sofridos, e também do professor e da diretora.

Após quase meia hora, as lágrimas foram cedendo lugar a um certo alívio, como se uma chuva de bênçãos tivesse lavado o travo de fel que pairava sobre a pequena assembléia...

Quebrando o silêncio, o garoto falou: Mãe! Posso lhe prometer uma coisa?
Vocês nunca mais virão à escola por motivos como este.

Um ano se passou, e a promessa que o jovem fez se cumpriu.

Um dia, o professor encontrou seu aluno no corredor da escola e lhe fez a
pergunta que há muito desejava fazer: o que fez você mudar, aquele dia, no
gabinete?

Pergunta que o jovem respondeu, um tanto constrangido: É que minha mãe nunca havia me chamado de meu filho. Aquelas duas palavras, professor, pronunciadas pela minha mãe com uma sonoridade espiritual tão profunda, foram o suficiente para eu mudar o rumo da minha vida...

O rapaz se despediu e se foi, deixando o mestre absorto em seus pensamentos...

Em sua mente voltou a cena daquele dia distante, em que adentrou a pequena sala do gabinete...

Em suas conjecturas se perguntou sobre qual seria a situação daquele moço, se tivesse sido expulso da escola naquela oportunidade...

Pensou também na força da pequena frase: Meu filho! E ficou a imaginar quão poderoso é o afeto de mãe.

E, como homem notável e admirável educador, concluiu, em seus lúcidos
raciocínios: O dia que as mães quiserem, elas mudarão o mundo.

E foi assim que essa história teve um final feliz...

Um final feliz graças ao pequeno gesto de um educador...

Seu gesto foi como um raio de luz que penetrou aqueles corações com tamanha suavidade, que foi capaz de mudar para sempre a vida daquela família...

Vamos pensar nisso sempre que o nosso parecer for solicitado diante de qualquer situação.


Como poderemos mudar a nossa atual situação?
Que temos que fazer para pintar e bordar a nossa vida com cores diferentes, mais coloridas?

A imaginação é mais importante do que o conhecimento, afirmou Albert Einstein, pois a imaginação é precursora do conhecimento, mas este, por sua vez, a enriquece.

Imaginar é ver um estado futuro com os olhos da mente. É o início de
reinvenção da própria pessoa. Representa os sonhos, esperanças, objetivos e planos.

O sonho que estamos vivendo é nossa criação. É a nossa percepção de
realidade que podemos mudar a qualquer momento.

Nós temos o poder de criar o inferno e poder de criar o céu.

Por que não usar a nossa mente, nossa imaginação e nossas emoções para criar o céu?

Imagine que você e eu temos a habilidade de enxergar o mundo com olhos diferentes, sempre que fizermos as nossas escolhas.

A cada vez que nós abrirmos os olhos poderemos ver amor saindo das árvores, descendo do céu, fluindo da luz.

Nós perceberemos o amor à nossa volta. Nós perceberemos o amor diretamente em tudo.

Então imaginemos que temos permissão para sermos felizes e aproveitarmos a nossa vida.

Imaginemos a nossa vida sem medo de expressar nossos sonhos.

Nós sabemos o que queremos, o que não queremos e quando queremos.

Estamos livres para alterar a nossa vida e dar a ela a forma que sempre desejamos.

Não temos mais o medo de pedirmos o que estamos precisando, de dizermos sim ou não para alguma coisa ou para alguém.

Não vamos regular mais o nosso comportamento de acordo com o que os outros possam pensar sobre nós.

Não temos a necessidade de controlar a ninguém, e, em contrapartida, ninguém nos controla.

Imaginemos viver a nossa vida sem julgar as pessoas. Nós poderemos perdoá-las com facilidade e esquecer os julgamentos.

Não temos a necessidade de estarmos sempre certos, não precisamos mais tornar todo mundo errado.

Nós vamos agora respeitar a nós mesmos e também respeitamos a todos que, em troca, também vão nos respeitar.

Imaginemos a nós mesmos vivendo sem medo de amar e de não ser amado. Não teremos mais medo sermos rejeitados e não teremos mais a necessidade de sermos aceitos.

Seremos capazes de dizer: "eu amo você", sem justificativa ou vergonha.

Vamos imaginar viver sem o temor de assumir um risco e explorar a vida.

Imaginemos que amamos a nós mesmos e amamos do jeitinho que somos. Amamos o nosso corpo da forma que ele é, amamos também as nossas emoções da forma que são.

O motivo que me leva a estar dizendo e pedindo para imaginarmos essas coisas é porque elas são inteiramente possíveis!

Você e eu podemos viver em estado de graça, em êxtase, no sonho do céu.

Mas, apenas o amor poderá nos colocar nesse estado de graça.

Nós podemos perceber o amor onde quer que vamos.

Isso é inteiramente possível porque outros já o fizeram e eles não são diferentes de nós.

Há mais de dois mil anos Jesus nos falou sobre o reino dos céus, do amor, mas as pessoas não estavam prontas para ouvir isso.

Viver pode ser muito fácil quando o amor é nossa forma de vida. Nós podemos estar plenos de amor o tempo todo.

É uma escolha nossa. Talvez não tenhamos motivos para amar, mas podemos amar, porque o amor nos torna felizes.

Por milhares de anos temos procurado a felicidade.

A felicidade é o nosso paraíso perdido.

Os seres humanos têm trabalhado tanto para alcançar esse ponto, e isso faz
parte da evolução. Este é o futuro da humanidade.

Esta forma de viver é possível e está ao nosso alcance.

Moisés a chamou de terra prometida, Buda a chamou de nirvana, Jesus a chamou de reino dos céus e os toltecas, de novo sonho.

O sofrimento nos faz sentir uma estranha sensação de segurança porque o conhecemos muito bem.

Mas, na realidade, não existe motivo para sofrer. Nós escolhemos sofrer e esse é o único motivo.

Se eu olhar para a minha vida vou encontrar um bocado de desculpas para sofrer, mas não vou encontrar nenhum bom motivo para sofrer.

O mesmo vale para a felicidade. A única razão para nós sermos felizes é porque escolhemos ser felizes.

A felicidade é uma escolha, assim como o sofrimento.

Sofrer, ou amar e ser feliz?

Viver no inferno ou viver no céu?

E qual será a nossa escolha?

Bibliografia: Palestra preparada com base em textos extraídos do site:
www.momento.com.br


 


 



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