AS PEQUENAS COISAS E O DESÂNIMO


(Palestra adaptada e apresentada por Sérgio Avelhaneda em 02.06.2006, no
Centro Espírita “Dr. Raymundo Mariano Dias” em Birigui/SP).

No nosso aprendizado diário, na nossa caminhada necessária para a evolução, nós encontramos dificuldades variadas ao longo do caminho, que parecem destinadas a nos desanimar no longo percurso da busca pela construção da nossa evolução.

Muitas vezes nós encontramos os chamados “inimigos gratuitos”, os amigos faladores que nos deixam em situações difíceis.

Outras vezes nos deparamos com enfermidades físicas, e também com as deficiências de caráter de tanta gente, o que nos provoca uma profunda tristeza, pois são companheiros que não movem uma palha em nosso favor, embora ocupem o nosso tempo sempre que encontram a mínima dificuldade.

Nós temos às nossas voltas a inflação que cresce e os ganhos materiais que parecem não acompanhá-la, o que nos faz pensar que quanto mais trabalhamos menos ganhamos e por outro lado gastamos mais.

Nós costumamos ver desmoronar os mais acalentados sonhos domésticos, sem nos sentirmos no direito de fugir.

Desmoronam os anseios do cônjuge atencioso e afetuoso; desmoronam o sonhos de se possuir filhos estudiosos, responsáveis, respeitosos; desmoronam os sonhos de se ter uma família companheira capaz de suprir as nossas necessidades de energias nas horas apertadas para o nosso coração.

Como se não bastasse, ainda surge a indiferença que nos faz sentir que estamos solitários no mundo, sem qualquer apoio ou sustentação moral.

Contudo, seja qual for a luta que lhe caiba, seja qual for o testemunho que tenha de enfrentar, não se deixe desestimular, não se permita o abatimento.

Mas, os espíritos superiores nos vêm dizer que não somos vítimas do mundo.

Dizem que simplesmente estamos envolvidos em um processo de reeducação, que estamos tendo oportunidade de nos acertamos com a vida que um dia desrespeitamos em vários de seus aspectos.

Nós que conhecemos Jesus, ou que pelo menos um dia ouvimos alguém falar sobre a lei de causa e efeito, devemos raciocinar que o bem ou o mal semeado na vida, da vida será colhido, e o nosso desconsolo ou o nosso desalento em nada irá colaborar para a resolução dos seus problemas.

Nós deveremos, então, aprendermos a analisar melhor as situações pelas quais tenhamos que passar.

Deveremos aprender a perdoar, a compreender, a respeitar as diferenças, a falar menos, a penetrar melhor as razões das coisas, a condenar menos, a ser mais indulgente.

O tempo implacável não pára. Assim, se nós o aproveitarmos para aprender a crescer e ser feliz, seremos abençoados com a conquista de expressiva claridade.

Caso nós desperdicemos o tempo, quando nos escondemos debaixo da maldição do desânimo ou à fuga, verdadeiramente teremos jogado fora o mais expressivo tesouro que nos é oferecido pelo criador, para que nos façamos ricos e felizes: que é o próprio tempo.

Não podemos nos perder nas teias da falta de estímulo. Confiemos sempre em Deus, que nos dá sempre o melhor, dando-nos as chances de brilharmos e sermos felizes.

Temos que pensar nisso!

Os obstáculos que surgem no nosso caminho, não são para impedir os nossos passos, são desafios para serem superados.

Cada vez que nós conseguimos vencer uma dificuldade, saímos dela mais fortalecidos e mais confiantes.

Assim, não vamos de maneira alguma nos deixar, jamais, ficarmos presos pelo desânimo em circunstância alguma, pois Deus confia no nosso poder de vencer os impedimentos e vencermos a nós mesmos.

Vocês já pararam, alguma vez, para observar uma gota d`água?

Sim, uma pequena gota d`água se equilibrando na ponta de um frágil raminho...

Com graciosidade a gotícula desafia a lei da gravidade, se balançando nas bordas das folhas ou nas pétalas de uma flor.

São gotas minúsculas, que enfeitam a natureza nas manhãs orvalhadas ou permanecem como pequenos diamantes líquidos, depois que a chuva se vai.

É por isso que um bom observador dirá que a vida seria diferente se não existissem gotas de água para orvalhar a relva e amenizar a secura do solo.

Madre Tereza de Calcutá foi uma dessas almas sensíveis.

Um dia, um jornalista que a entrevistava disse-lhe que, embora admirasse o seu trabalho junto aos pobres e enfermos, considerava que o que ela fazia, diante da imensa necessidade, era como uma gota d`água no oceano.

E aquela pequena sábia-mulher, lhe respondeu: “sim, meu filho, mas sem essa gota d`água o oceano seria menor.”

Sem dúvida uma resposta simples e extremamente profunda.

Pois sem os pequenos gestos que significam muito, a vida não seria tão bela...

Um aperto de mão, em meio à correria do dia-a-dia...

Um minuto de atenção a alguém que precisa de ouvidos atentos, para que não caia nas malhas do desespero...

Uma palavra de esperança a alguém que está à beira do abismo.

Um sorriso gentil a quem perdeu o sentido da vida.

Uma pequena gentileza diante de quem está preso nas armadilhas da ira.

O silêncio, frente à ignorância disfarçada de ciência...

A tolerância com quem perdeu o equilíbrio.

Um olhar de ternura para quem pena na amargura.

Pode-se dizer que tudo isso são apenas gotas d`água que se perdem no imenso oceano, mas são essas pequenas gotas que fazem a diferença para quem as recebe.

Sem as atitudes, aparentemente insignificantes, que dentro da nossa pequenez conseguimos realizar, a humanidade seria triste e a vida perderia o sentido.

Um abraço afetuoso, nos momentos em que a dor nos visita a alma...

Um olhar compassivo, quando nos extraviamos do caminho reto...

Um incentivo sincero de alguém que deseja nos ver feliz, quando pensamos que o fracasso seria inevitável...

Todas essas são atitudes que embelezam a vida.

E, se um dia alguém nos disser que esses pequenos gestos são como gotas d`água no oceano, vamos responder, como madre Tereza de Calcutá, que sem essa gota o oceano de amor seria menor.

E tenhamos a certeza disso, pois as coisas grandiosas são compostas de minúsculas partículas.



Sem a nossa quota de honestidade, o oceano da nobreza seria menor.

Sem as gotas da nossa sinceridade, o mar das virtudes seria menor.

Sem o a nossa contribuição de caridade, o universo do amor fraternal seria consideravelmente menor.

Temos que pensar nisso!

E jamais acreditemos naqueles que não sabem a importância de um pequeno tijolo na construção de um edifício.

Vamos então nos lembrar da minúscula gota d`água, que delicadamente se equilibra na ponta do raminho, só para tornar a natureza mais bela e mais romântica, à espera de alguém que a possa contemplar.

E, por fim, jamais esqueçamos que são essas mesmas pequenas e frágeis gotas d´água que, com insistência e perseverança conseguem esculpir a mais sólida rocha.

Charles Plumb era piloto e, certa vez, seu avião foi derrubado, durante uma missão de combate.

Ele saltou de pára-quedas, salvando a vida. Caiu em campo inimigo, foi capturado e passou seis anos como prisioneiro.

Sobreviveu e ao retornar ao seu país, começou a fazer palestras, relatando a sua odisséia e o que a prisão lhe ensinara.

Certo dia, em um restaurante, foi saudado por um homem: “Olá, você é Charles Plumb, o piloto que teve seu avião derrubado, não é mesmo?”

“Sim”, respondeu. “como você sabe?”

“Ora, era eu quem dobrava o seu pára-quedas. Parece que funcionou bem, não é verdade?”

O piloto ficou boquiaberto. Muito grato, afirmou: “Claro que funcionou, caso contrário eu não estaria aqui hoje.”

Naquela noite, ele não conseguiu dormir, pensando e pensando.

“Quantas vezes vi esse homem no porta-aviões e nunca lhe disse ‘bom dia?’ eu era um piloto arrogante e ele, um simples marinheiro.”

Pensou nas horas que o marinheiro passou humildemente no barco, em meio a tantos outros pilotos, tão senhores de si, como ele próprio se considerava.

Pensou que o marinheiro teve em suas mãos habilidosas, que enrolavam os fios de seda dos pára-quedas, as vidas de tantos que nem conhecia.

Mas a sua tarefa bem realizada era a responsável por vários deles continuarem a viver.

Todos os que haviam precisado de um pára-quedas, um dia.

Hoje, quando Plumb inicia as suas palestras, o faz perguntando à platéia: “Quem dobrou o seu pára-quedas hoje?”

Porque a vida é assim. Todos temos alguém cujo trabalho é importante para que possamos seguir adiante.

Precisamos de muitos pára-quedas durante o dia: físicos, emocionais, mentais, espirituais.

Precisamos do ônibus e o motorista nos conduz, tendo nas suas mãos as nossas vidas. Mas nem o olhamos.

Na repartição, aguardamos o cafezinho com quase ansiedade, desejando realizar a pausa entre as tarefas e saboreá-lo, com calma.

No entanto, nos esquecemos de olhar nos olhos da funcionária que o serve, de a cumprimentar, de perguntar se está bem. Sequer lhe sabemos o nome.

Entramos no elevador, dizemos o andar que desejamos, sem desejar um bom dia ao ascensorista que passa horas, dentro daquela caixa, que sobe e desce, sem parar.

Por vezes, perdemos de vista o que é verdadeiramente importante.

Esquecemos das pessoas que nos salvam no momento oportuno sem que lhes tenhamos pedido.

Dos que nos suportam, dos que nos oferecem o ombro amigo para chorar. Dos que ouvem as nossas lamúrias e as nossas alegrias.

Deixamos de saudar, de agradecer, de dizer algo amável, de sorrir.

E que dirá dos amigos espirituais? Nosso anjo de guarda que se desvela em cuidados?

Deus, que todos os dias, pinta quadros novos de beleza para nosso deleite?

Deus, cujo amor nos sustenta, cuja misericórdia nos alcança.

Lembremos de mostrar nossa gratidão.

Um telefonema, um sorriso às pessoas. Um pequeno cartão. Um mimo inesperado em invólucro delicado.

Um instante de reflexão. Uma prece. Uma oração de gratidão.

E neste momento eu me lembro que há muitos anos atrás eu ouvi o Divaldo recitando um poema que eu nunca mais esqueci. Era um poema do espírito Amélia Rodrigues e ele recitava tão bem, que me envolveu tanto, me emocionou e ele fez mais ou menos assim:

Senhor Deus!
Nós, aqueles que te amamos,
Levantamos para agradecer!

Queremos dizer-te que a vida é bela, rica de magia, marcada por várias emoções de
euforia,
E, ao invés de pedir-te, eu que tenho tanto, quero agradecer...

Então, Senhor,
muito obrigado pelo que me destes,
Muito obrigado pelo que me dás,
Obrigado pelo ar, pelo pão, pela paz.

Muito obrigado pela beleza que meus olhos vêm no altar da natureza,
Olhos que fitam o céu, a terra e o mar,
Que acompanham as aves ligeiras, que correm fagueiras pelo céu de anil,
E que se debruçam sobre a terra, cercada de flores em tonalidades mil,

Muito obrigado, Senhor
Pela minha faculdade ver.
Porque, através dos meus olhos, posso contemplar a Natureza e todos os painéis de beleza,
Olhos que me permitem ver o amor,
Mas, dentro deles detectam a tristeza, o sofrimento e a dor.
Enquanto o cego que não pode enxergar, por eles eu oro,
Porque tenho a certeza que, depois desta vida, na outra vida, eles também poderão mirar.

Muito obrigado Senhor pelos ouvidos meus,
Que me foram dados por Deus
Ouvidos que ouvem o burilar, da chuva no telheiro,
A melodia dos ventos nos ramos do salgueiro, e as lágrimas que choram nos olhos do mundo inteiro.
Ouvidos que ouvem a música do povo,
Que desce do morro à praça a cantar,
A melodia dos imortais,
Que a gente ouve uma vez e não esquece nunca mais.
Pela minha faculdade de ouvir,
Deixa-me pelos surdos pedir,
Eu sei que, depois desta dor,
No teu Reino de amor
Eles também voltarão a ouvir...

Muito obrigado, Senhor
Pela minha voz,
Mas, também, pela tua voz,
Pela voz que canta, que declama, que ensina, que evangeliza, que ilumina,
Pela voz que flauteia uma canção,
E que seu nome repete com profunda emoção.
Diante de tanta melodia
Deixa-me orar pelos que sofrem de afazia,
Os que não cantam de noite, os que não falam de dia
Eu sei que, depois desta prova, na vida nova,
Eles também cantarão.

Muito obrigado Senhor
Pelas minhas mãos,
Mas, também, pelas mãos que aram, que semeiam, que trabalham. Pelas mãos d’amor, mãos de ternura, mãos que libertam o homem de amargura
Mãos de caridade, de solidariedade,
Pelas mãos que escrevem cartas de amor,
Que diminuem a dor,
Pelas mãos que embalam o filho de corpo alheio,
Como se fosse do seu próprio seio.

E pelos pés que me levam a andar, sem reclamar,
Obrigado Senhor, porque eu posso caminhar.

Diante do meu corpo perfeito, eu te quero louvar
Porque existem na Terra infelizes, aleijados, desgraçados, tombados...
E eu, posso bailar.

Oro por eles... eu sei
Que depois desta expiação
Na outra encarnação
Eles também bailarão.

Muito obrigado, enfim, pelo meu lar.
É tão bom ter um lar.
Não é importante que este lar seja uma mansão, um leito de dor, um ninho
Uma casa no caminho, seja lá o que for.

Mas, é muito importante que dentro deste lar haja amor.
Amor de mãe, ou de pai, de esposa ou de marido,
De amigo ou de irmão,
De alguém que nos dê a Mão,
Nem que seja o olhar de um cão,
Porque é muito cruel viver na solidão.

Mas, se a ninguém eu tiver para me amar,
Nem uma casa pequenina, para eu morar
Nem um teto para me abrigar,
Nem cama para me deitar,
Nem aí me desesperarei.

Porque eu tenho a ti, Senhor, e te direi:
Obrigado Senhor, porque nasci,
Obrigado Senhor, porque creio em ti,
Muito obrigado Senhor pelo teu amor,
Muito obrigado, Senhor...

E termino esta palestra também dizendo:

Pela noite de hoje, pelo nosso encontro nesta noite, obrigado, Senhor.


BIBLIOGRAFIA: palestra montada com base em vários textos do site: www.momento.com.br

 

Foto de Sérgio Avelhaneda

 

 

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