ENSAIOS PARA O AMOR

Todos nós já sabemos que o amor é a suprema lei da vida.

O Mestre Jesus, há dois mil anos atrás já nos lembrava do amar a Deus sobre todas as coisas e também amar ao próximo como amamos a nós mesmos. Mas o ser humano, de um modo geral vem se debatendo em grandes dificuldades para viver na pratica esta lei que com certeza poderá trazer a felicidade para junto de todos nós.

Por isso hoje quero falar do sentimento da amizade como um verdadeiro ensaio para o amor. Quero contar algumas histórias para refletirmos juntos a grandeza desses sentimentos.

Vou começar contando a história de uma velhinha...
Ela era uma velhinha que morava sozinha, em uma grande casa. Não tinha amigos porque, ao longo dos anos, ela os vira morrer, um a um.
Seu coração era um poço de saudade e de perdas. Por isso, ela decidira que nunca mais se ligaria afetivamente a ninguém.
E, para se lembrar que um dia tivera amigos, passara a chamar as coisas pelos nomes dos amigos que haviam morrido.
Sua cama se chamava Belinha. Era grande, sólida e confortável. Mesmo depois que ela se fosse, Belinha continuaria a existir.
A poltrona confortável da sala de visitas se chamava Frida. Haveria de durar muitos anos mais.
A casa se chamava Glória. Tinha sido construída há mais de cem anos, mas não aparentava mais que vinte. Era feita de madeira muito forte, vigorosa.
E o carro, grande, espaçoso se chamava Beto. “haveria de servir”, pensava a velhinha, “para alguém, depois de sua morte.”
E assim vivia a velhinha solitária.
Certo dia, quando estava lavando a lama de Beto, um cachorrinho chegou no portão. O portão não tinha nome, porque ela achava que ele logo teria que ser substituído. Suas dobradiças estavam enferrujadas e a madeira apodrecida.
O animalzinho parecia estar com fome e ela tirou um pedaço de presunto da geladeira e o deu ao cão, mandando-o embora.
Porém, no dia seguinte, ele voltou. E no outro e no outro. Todos os dias, ele vinha, abanava o rabo e ela o alimentava, mandando-o embora.
Ela dizia que Belinha, a cama, não comportava um adulto e um cachorro, que Frida, a poltrona, não gostava que cães sentassem nela e Glória, a casa, não tolerava pêlo de cachorro.
E Beto, o carro? Bom, esse fazia os cachorros passarem mal.
Um ano depois, o animal estava grande, bonito. E tudo continuava do mesmo jeito. Até que um dia ele não apareceu.
Ela ficou sentada na escada, esperando. No dia seguinte, também. Nada.
Resolveu telefonar para o canil da cidade e perguntar se eles tinham visto um cachorro marrom. Descobriu que eles tinham dezenas de cachorros marrons.
Quando perguntaram se ele estava usando coleira com o nome, ela se deu conta que nunca dera um nome para ele.
Sentou-se e ficou pensando no cachorro marrom que não tinha coleira com um nome. Onde quer que ele estivesse, ninguém saberia que ele tinha de vir todos os dias até seu portão para que ela lhe desse de comer.
Tomou uma decisão. Dirigiu Beto, o carro, até o canil e falou para o encarregado que queria procurar o seu cachorro.
Quando ele lhe perguntou o nome do cachorro, ela se lembrou dos nomes de todos os amigos queridos aos quais havia sobrevivido.
Viu seus rostos sorridentes, lembrou-se de seus nomes e pensou em como fora abençoada por ter conhecido esses amigos.
“Sou uma velha sortuda”, pensou.
“O nome do meu cachorro é Sortudo”, disse.
E gritou, ao ver os cães no grande quintal: “aqui, Sortudo!”
Ao som da sua voz, o cachorro marrom veio correndo. Daquele dia em diante, Sortudo morou com a velhinha.
Beto, o carro, parece que gostou de transportar o cachorro. Frida, a poltona, não se incomodou que ele sentasse nela. Glória, a casa, não ligou para os pelos do cachorro.
E todas as noites Belinha, a cama, faz questão de se esticar bem para que nela possam se acomodar um cachorro marrom, o Sortudo...e a velhinha que lhe deu o nome.

Contei essa história para dizer que não devemos ter medo de nos afeiçoar às pessoas. Ninguém consegue viver sem amor, sem amigos, sem ninguém.
Não podemos nos fechar em um bloco de solidão, nem devemos perder a oportunidade extraordinária de amar.
Devemos amar quem estiver perto de nós, a quem nos rodeia. Também amar à natureza e os animais, recordando que tudo é obra do excelente pai que nos criou.
Mas você deve estar pensando que isso pode ser muito difícil, não é?
Saiba que o nosso grande problema, nas relações pessoais, é que desejamos que os outros sejam iguais a nós?
Em se falando de amigos, desejamos que eles gostem exatamente do que gostamos, que apreciem o mesmo gênero de filmes e música que constituem o nosso prazer.
No círculo familiar, gostaríamos que todos os componentes da família fossem ordeiros, organizados e disciplinados como nós.
No ambiente de trabalho, reclamamos dos que deixam a cadeira fora do lugar, papel espalhado sobre a mesa e também reclamamos muito daqueles que derramam café, quando se servem.
Dizemos que são relaxados e que é muito difícil conviver com pessoas tão diferentes de nós mesmos. Por vezes, chegamos às raias da infelicidade, por essas questões.
E isso me faz lembrar da história de um menino chamado Pedro. Ele tinha algumas dificuldades muito próprias.
Por exemplo, quando tentava desenhar uma linha reta, ela saía toda torta.
Quando todos à sua volta olhavam para cima, ele olhava para baixo. Ficava olhando para as formigas, os caracóis, em sua marcha lenta, as florzinhas do caminho....
Se ele achava que ia fazer um dia lindo e cheio de sol, então chovia. E lá se ia por água abaixo, todo o piquenique ele tinha programado.
Um dia, de manhã bem cedo, quando Pedro estava brincando de andar de costas contra o vento, ele deu um encontrão em uma menina, e descobriu que ela se chamava Tina. E tudo o que ela fazia era certinho.
Ela nunca amarrava os cordões de seus sapatos de forma incorreta nem virava o pão com a manteiga para baixo.
Ela sempre se lembrava do guarda-chuva e até sabia escrever o seu nome direito.
Pedro ficava encantado com tudo que Tina fazia. Foi ela que lhe mostrou a diferença entre direito e esquerdo. Entre a frente e as costas.
Um dia, eles resolveram construir uma casa na árvore. Tina fez um desenho para que a casa ficasse bem firme em cima da árvore.
Pedro juntou uma porção de coisas para enfeitar a casa. Os dois acharam tudo muito engraçado. A casa ficou linda, embora as trapalhadas de Pedro.
Bem no fundo, Tina gostaria que tudo que ela fizesse não fosse tão perfeito. Ela gostava da forma de Pedro viver e ver a vida.
Então Pedro lhe arranjou um casaco e um chapéu que não combinavam. E toda vez que brincavam, Tina colocava o chapéu e o casaco, para ficar mais parecida com Pedro.
Depois, Pedro ensinou Tina a andar de costas e a dar algumas cambalhotas.
Juntos, rolaram morro abaixo. E juntos aprenderam a fazer aviões de papel e a fazê-los voar para muito longe.
Um com o outro, aprenderam a ser amigos até debaixo d’água. E para sempre.
Eles aprenderam que o delicioso em um relacionamento é harmonizar as diferenças.
Aprenderam que as diferenças são importantes, porque o que um não sabe, o outro ensina. Aquilo que é difícil para um, pode ser feito ou ensinado pelo outro.
E eu contei essa história simplesmente pra dizer que é assim que se cresce no mundo.
Por causa das grandes diferenças entre as criaturas que o habitam.
A sabedoria divina colocou as pessoas no mundo, com tendências e gostos diferentes umas das outras.
Também em níveis culturais diversos e degraus evolutivos diferentes.
Tudo para nos ensinar que o grande segredo do progresso está exatamente em aprendermos uns com os outros, a trocar experiências e valorizar as diferenças.


E, eu me lembrei de uma outra história que pode também ilustrar esse nosso assunto que considero tão interessante:
No século IV A C., em Siracusa, na Sicília, havia dois amigos inseparáveis. Eles se chamavam Pitias e Damon e nada havia que um não fizesse pelo outro.
Certo dia o rei de Siracusa, chamado Dionísio, ficou muito aborrecido ao tomar conhecimento de certos discursos que Pítias vinha fazendo.
O jovem pensador andava dizendo ao público que nenhum homem devia ter poder ilimitado sobre outro. E que os tiranos absolutos eram reis injustos.
Presos ambos os amigos, Pítias reafirmou perante a autoridade real as suas idéias. O que dizia ao povo era a verdade e portanto a sustentaria, custasse o que custasse.
Acusado de traição, Pítias foi condenado à morte. Como seu último desejo, pediu ao rei que o deixasse dizer adeus à sua mulher e filhos e por os assuntos domésticos em ordem.
Dionísio riu do desejo do condenado. E o rei disse a Pítias:
“Vejo que além de injusto e tirano, você também me considera um tolo. Se sair de Siracusa, tenho certeza que nunca mais voltará”
Foi nesse momento que Damon adiantou-se e ofereceu-se como garantia. Ficaria em Siracusa como prisioneiro, até o retorno do amigo. E disse para o rei:
“Pode ter certeza de que Pítias voltará. Nossa amizade é bem conhecida. Eu ficarei aqui.”
Ainda um tanto desconfiado, o rei Dionísio examinou os dois amigos. Alertando Damon que, se Pítias não voltasse, ele morreria em seu lugar, e aceitou a oferta.
Pítias partiu e Damon foi atirado na prisão. Muitos dias se passaram e Pítias não voltava e o rei foi verificar como estava o ânimo do prisioneiro.
Estaria arrependido de ter feito o acordo? E visitando o prisioneiro Damon disse:
“Seu tempo está chegando ao fim”, será inútil implorar misericórdia. Você foi um tolo em confiar em seu amigo. Achou mesmo que ele voltaria para morrer?”
Com firmeza, Damon respondeu:
“É um mero atraso. Talvez os ventos não lhe tenham permitido navegar. Talvez tenha tido um imprevisto na estrada. Guardo a certeza que, se for humanamente possível, ele chegará a tempo.”
Dionísio admirou-se da confiança do prisioneiro.
Chegou o dia fatal. Damon foi retirado da prisão e levado à presença do carrasco.
Lá estava o rei, sarcástico, gozando sua vitória. E perguntou ao prisioneiro:
“Parece que seu amigo não apareceu. Que acha dele agora?”
E sabem qual foi a resposta de Damon? Foi esta:
“É meu amigo. Confio nele”,.
Nem terminara de falar e as portas se abriram, deixando entrar Pítias cambaleante.
Estava pálido, ferido e a canseira lhe tirava o fôlego. E atirou-se nos braços do amigo e falou a chorar, soluçando muito:
“Graças aos céus, você está vivo, parece que tudo conspirava contra nós. Meu navio naufragou numa tempestade. Depois, bandidos me atacaram na estrada.” Recusei-me, contudo, a perder a esperança e aqui estou. Estou pronto para cumprir a minha sentença de morte.”
O rei Dionísio ouviu com espanto as palavras. Ficou impressionado e ra-lhe impossível resistir ao poder de tal lealdade.
Emocionado, declarou:
“A sentença está revogada. Jamais acreditei que pudessem existir tamanha fé e lealdade na amizade. Vocês mostraram como eu estava errado. É justo que ganhem a liberdade. Em troca, porém, peço um grande auxílio”.
“Que auxílio?” Perguntaram os amigos.
“Ensinem-me a fazer parte de tão sólida amizade”.

Meus amigos: A amizade é mais que afinidade. Envolve muito mais que afeição.
Para sermos amigos temos que nos curvar diante das exigências da amizade!
Sabem o que a amizade exige? Não se lembram? Pois vou contar:
A amizade exige a franqueza, a sinceridade, a lealdade incondicional e a capacidade de auxiliar a de chegarmos ao sacrifício!
E esses sentimentos são estímulos poderosos para o amadurecimento moral e o enobrecimento de qualquer ser humano.
A amizade verdadeira requer tempo, esforço e trabalho para ser mantida.
A amizade é, meus amigos, algo muito, mas muito profundo.
E de fato, é uma forma de amor.

E hoje estou com vontade de contar mais uma história:
Alguém me contou uma velha lenda dos índios Sioux, que uma vez, Touro Bravo, o mais valente e honrado de todos os jovens guerreiros, e Nuvem Azul, a filha do cacique, uma das mais formosas mulheres da tribo, chegaram de mãos dadas, até a tenda do velho feiticeiro da tribo.
E o jovem guerreiro disse de forma bem decidida:
“Nós nos amamos... e vamos nos casar. E nos amamos tanto que queremos um feitiço, um conselho, ou um talismã...alguma coisa que nos garanta que poderemos ficar sempre juntos...que nos assegure que estaremos um ao lado do outro até encontrarmos a morte. Há algo que possamos fazer? “
E o velho emocionado ao vê-los tão jovens, e tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse :
“Tem uma coisa a ser feita, mas é uma tarefa muito difícil e sacrificada... Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte dessa aldeia, e apenas com uma rede e tuas mãos, deves caçar o falcão mais vigoroso do monte...e trazê-lo aqui com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia.”
E tu, Touro Bravo, continuou o feiticeiro, deves escalar a montanha do trono, e lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias, e somente com as tuas mãos e uma rede, deverás apanhá-la trazendo-a para mim, viva !
Os jovens abraçaram-se com ternura, e logo partiram para cumprir a missão recomendada... No dia estabelecido, à frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves dentro de um saco.
O velho pediu, que com cuidado as tirassem dos sacos... e viu que eram verdadeiramente formosos exemplares...
E o jovem guerreiro apaixonado perguntou ao feiticeiro da tribo:
“E agora o que faremos? perguntou o jovem, as matamos e depois bebemos a honra de seu sangue?
E a jovem também propôs ao feiticeiro:
“Ou cozinhamos e depois comemos o valor da sua carne?”
Mas o feiticeiro surpreendeu quando disse aos dois jovens apaixonados:
“Não! apanhem as aves, e amarrem-nas entre si pelas patas com essas fitas de couro... quando as tiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres ...
O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado, e soltaram os pássaros... A águia e o falcão, tentaram voar mas apenas conseguiram saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela incapacidade do vôo,as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se machucar.
E o velho e sábio feiticeiro disse :
“Jamais esqueçam o que estão vendo..este é o meu conselho. Vocês dois são como a águia e o falcão...se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar-se um ao outro...

Se quiserem que o amor entre vocês dure por muito tempo, não se esqueçam do lhes falo neste momento:
Aprendam a voar juntos... mas jamais tentem voar amarrados!
Meus amigos escutemos o que dizem os sábios do céu e da terra:

Corremos de um lado para o outro
esperando descobrir a chave da felicidade...
Esperamos que tudo que nos preocupa se resolva num passe de mágica.
Achamos que a vida seria tão diferente, se pelo menos fôssemos felizes.

E, assim, uns fogem de casa para serem felizes
e outros fogem para casa para serem felizes...
Uns se casam para serem felizes e outros se divorciam
para serem felizes...
Uns fazem viagens caríssimas para serem felizes e outros trabalham além
do normal para serem felizes ...

Uma busca infinda. Anos desperdiçados.
Nunca a lua está ao alcance da mão, nunca o fruto está maduro,
nunca o vinho está no ponto.
Sombras, lágrimas. Nunca estamos satisfeitos.

Mas, há uma forma melhor de viver !
A partir do momento em que decidimos ser felizes, nossa busca
da felicidade chegou ao fim.
É que percebemos que a felicidade não está na riqueza material,
na casa nova, no carro novo, naquela carreira. naquela pessoa.
E jamais está à venda .

Quando não conseguimos achar satisfação dentro de nós mesmos,
é inútil procurar em outra parte.
Sempre que dependemos de coisas fora de nós para ter alegria,
estamos fadados à decepção.

A felicidade não tem nada a ver com conseguir.
Consiste em satisfazer-nos com o que temos e com o que não temos.
Poucas coisas são necessárias para fazer feliz o homem sábio,
ao mesmo tempo em que nenhuma fortuna satisfaria a um inconformado.
As necessidades de cada um de nós são poucas.

Enquanto nós tivermos alguma coisa a fazer, alguém a amar,
alguma coisa a esperar, seremos felizes.
Saibam: a única fonte de felicidade está dentro de nós mesmos,
Aprendamos a sermos felizes e alegres com o que temos.

Repartir alegrias é como espalhar perfumes sobre os outros:
sempre algumas gotas acabam caindo sobre nós mesmos.
Diante da incerteza do amanhã... aproveitemos o hoje para sermos felizes, não depois, mas agora !

Palestra organizada por Sérgio Avelhaneda em 21.09.2003

 



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