VIVENDO E APRENDENDO (COM CALMA E ESPERANÇA)

Palestra organizada por Sérgio Avelhaneda e apresentada na Sociedade Allan Kardec de Birigui na noite de 27/11/05.

Quando as nuvens negras dos pensamentos tormentosos cobrirem com escuro véu o horizonte de tuas esperanças e a barca de teu coração agitar-se, desgovernada, sobre as ondas...

Quando as obrigações diárias, as dificuldades e os problemas, as surpresas - nem sempre agradáveis -, levarem-te a dizer: - que dia!

Lembra-te de um momento na vida de Jesus...

Caía a tarde e a multidão ainda estava reunida na praia.

Desde que o Sol surgira, Jesus atendera as incontáveis súplicas daqueles que
o buscavam. Mãos e lágrimas roçavam-lhe o rosto e a túnica - antes tão limpa
e alva - e agora, toda manchada de lamentos.

Finalmente, chegara às margens do lago, vencendo a dor e as tristezas dos sofredores. Aqueles que O viram deixando atrás de si um rastro confortador de estrelas, perguntavam-se: - quem será este homem, a quem as dores obedecem?

O céu acendia as cores da noite quando a barca de Pedro recolheu preciosa carga.

Jamais Jesus mostrara na face sinais tão evidentes de cansaço. Acomodado sobre uma almofada de couro, Sua majestosa cabeça pendeu sobre o peito, como um girassol real despedindo-se ao poente.

Seus lábios deixaram escapar um longo suspiro antes de adormecer. Seus amigos pescadores não ousaram perturbar-lhe o merecido sono, manejando remos com cuidado, auxiliados pelos sussurros de doce brisa.

O lago de Genesaré assemelhava-se a gigantesco espelho de prata ao luar, tranqüilo e sereno como o Mestre adormecido.

Faltava pouco para completar a travessia, quando tudo transformou-se. O tempo irou-se, sem aviso. Adensadas, as nuvens de gaze leve tornaram-se tenebrosa tempestade, e o lago esqueceu a calmaria, encrespando-se, açoitado pelo vento.

Para a barca, vencer a tormenta era como lutar contra vigoroso e invencível Titã.

Pedro usou toda a sua força e sabedoria nos remos, gritando ordens que se perdiam entre as gargalhadas dos trovões e dos relâmpagos.

Os discípulos assustados correram a acordar Jesus que ainda dormia. - Mestre! - exclamaram em coro desesperado - pereceremos!

Jesus, assim desperto, levantou-se prontamente, equilibrando o corpo cansado muito ereto, apesar da barca que por pouco não naufragava.

Sua majestosa silhueta parecia estar envolta em misteriosa luz, quando ergueu os braços, ordenando à tempestade:
- Calai-vos! E voltando-se para os amigos:- acalmai-vos! Homens, onde está a
vossa fé?

Os ventos emudeceram e o lago baixou suas ondas, aplacado por misterioso imperativo.

Os discípulos olhavam-se, num misto de surpresa e alívio.

Envergonhados, voltaram-se para os remos. No compasso ritmado avançava a barca, ao compasso do coração daqueles homens que se perguntavam: quem será este homem, a quem os ventos obedecem?

***
Quando as nuvens negras dos pensamentos tormentosos cobrirem com escuro véu o horizonte de tuas esperanças, e a barca de teu coração agitar-se, desgovernada, sobre as ondas...

Quando as obrigações diárias, as dificuldades e os problemas, as surpresas - nem sempre agradáveis -, levarem-te a dizer: - que dia!

Lembra-te...acorda a mensagem do Cristo adormecida em ti e... Acalma-te!

Por mais bela e florida que seja a primavera, o verão sempre pede passagem e traz consigo os dias quentes.

E mesmo que desejemos reter os dias ensolarados e agradáveis, aproxima-se o outono e, como que obedecendo a um chamado superior, instala-se, silencioso e decidido...

Depois de um lindo espetáculo de cores, as folhas caem, vencidas, transformando a paisagem... E o outono também parte...

Soberano, logo aparece o inverno e se faz sentir das mais variadas formas, com seus dias frios e cinzentos.

Passa o tempo e outra vez o espetáculo colorido de folhas e flores anunciam que a primavera está de volta...

E é assim que os ciclos das estações se repetem e trazem oportunidades de aprendizado para todos os seres vivos.

Semelhante às estações, o nosso viver também tem primaveras, verões, outonos e invernos...

Mas nem sempre percebemos as lições que cada estação enseja, e nos desesperamos diante dos dias frios e cinzentos dos invernos existenciais.

A primavera é agradável, não há dúvida. Flores e perfumes tornam nossos dias mais alegres.

No entanto, se as flores surgem na primavera, é no inverno que acumulam as horas de frio necessárias para fazer brotar a gema floral com o choque térmico no início da nova estação.

Sim! Se não fosse o frio não teríamos alguns tipos de flores e frutos.

O frio “quebra” a dormência das gemas que originarão a folhagem e os frutos na primavera, quando folhas e flores enfeitam a paisagem.

É assim que nós também podemos utilizar os invernos existenciais para favorecer a floração das virtudes que embelezam a nossa vida e nos trazem alegria...

Para as plantas, a escassez de umidade, o frio e a baixa luminosidade, ocasionadas pelo inverno, são qual jardineiro que desperta a vida adormecida em sua intimidade.

É assim que árvores e plantas perdem galhos e folhas, mas garantem floradas em todas as primaveras...
Por vezes, os seres humanos também passam pelos invernos existenciais e perdem temporariamente a exuberância. Sentem-se como uma árvore desfolhada, sem flor nem perfume...

Mas que importa se a vida que pulsa, além das aparências, está se preparando para produzir flores mais belas e perfumadas nas primaveras vindouras?

Geralmente são os dias mais difíceis que acordam em nós as sementes adormecidas da esperança...

Não há dúvida de que os dias ensolarados e alegres são encantadores, mas são os dias difíceis que mais desafiam as nossas potencialidades e quebram a concha da nossa acomodação...

O sofrimento que nos fustiga a alma é abençoado aguilhão que nos faz despertar para os valores reais da vida.

Assim, diante dos açoites do inverno, pense nas preciosas lições da natureza.

Observe as árvores desfolhadas, quais esqueletos nus na paisagem cinzenta e sem brilho, mas em pé... Firmes e cheias de esperança.

Suportam os ventos, a chuva, o frio e a falta de luz, mas conservam a seiva da vida na intimidade...

Instintivamente aguardam o retorno da primavera que, com sua brisa morna, vem acariciar as flores e fazê-las frutificar...

***

Aproveitemos nossos os dias ensolarados para armazenar o vigor, a energia que nos sustentará nos invernos existenciais...

E quando os dias escuros surgirem na nossa vida, não permitamos que a tristeza nos roube a esperança de ver surgir, outra vez, a primavera...

Lembremos sempre que, mesmo nos dias nublados, o sol estará sempre à espreita, esperando sua vez de brilhar e espalhar vida por sobre toda a natureza...

***

Os adultos desejam ensinar tudo às crianças. Quando elas iniciam a balbuciar, não se cansam de repetir as palavras, a fim de que elas aprendam a falar de forma correta.

Nós lhes ensinamos o alfabeto, os números, as cores. Mergulhamos com elas nos livros, auxiliando-as a descobrir as maravilhas do macro e do microcosmo.

Somos os mais experientes porque já vivemos alguns anos a mais do que elas.

Contudo, existem lições de sabedoria que essas criaturinhas nos ensinam, todos os dias.

Quando uma criança se machuca, não importa se é um pequeno ou grande machucado, ela logo chora e procura o colo da mãe. Chorando, ela informa que está doendo, que aquilo a está incomodando muito.

Buscando o colo da mãe, ela deseja ser acarinhada, confortada, auxiliada.

Lição para o adulto: você não precisa suportar a dor sem chorar. E procure alguém em quem você confia para ajudá-lo.

Pode ser um amor precioso, ou um amigo, um irmão. Enfim, alguém que lhe dê a mão.

Quando uma criança cai de um brinquedo e quebra o braço, nem por isso deixa de, ainda com o braço engessado, subir no mesmo brinquedo.

Deseja provar que é capaz, que consegue, que vai vencer.

Ensina, desta forma, que não se deve desistir porque o negócio não deu certo ou porque foi reprovado em teste de seleção em uma empresa.

O importante é não se deixar abater e continuar a tentar, até conseguir.

Quando uma criança está com sono, ela se aconchega, fecha os olhinhos e dorme.

Se o coelhinho perdeu uma orelha ou o carrinho quebrou, assim mesmo ela dorme. E no sono, se permite sonhar.

Sonha com lugares lindos, bolas coloridas, muitos brinquedos, sorvete, brincadeiras e amigos.

Nova lição para o adulto: se seu corpo assinala que está na hora de dormir, atenda-o. Recolha-se ao leito e descanse. Depois, você recomeçará as tarefas, e muito melhor.

Não se permita a insônia por causa de coisas materiais. Se os índices da bolsa oscilaram, ou se sua conta não apresenta tantos dígitos, durma mesmo assim.

Seu corpo precisa recuperar as energias pelo repouso. Depois, você retornará às lutas, ao trabalho, às melhores decisões.

Quando uma criança brinca, ela se permite entrar em seu mundo de faz-de-conta e mergulha por inteiro.

Ela fantasia, fala com seus bichinhos e bonecos, cria histórias, sonha de olhos abertos.

Ela é o homem que voa, o dono de uma grande fazenda cheia de animais, o astronauta a caminho do infinito.

Não há limites para a sua imaginação. E isso a satisfaz, a faz feliz.

Com isso, diz ao homem que ele nunca deve deixar de sonhar e de perseguir os seus sonhos.

Que deve se concentrar em seus desejos e perseverar.

Tudo é possível àquele que trabalha, prossegue, não desiste.

***

A criança é alguém que nos diz, todos os dias, que é bom viver, que o mundo é belo e que não há limites para a mente humana.

Ela nos afirma, com seu jeito de ser, que podemos sonhar, sem perder a esperança;

Que podemos sofrer reveses, sem cair no desânimo;

Que podemos preservar a saúde, mesmo que adversidades nos envolvam.

Enfim, ela nos ensina que a esperança deve brilhar sempre em nossos olhos.

Isto porque depois deste dia, o sol despertará o amanhã e tudo terá o brilho do novo, do não conquistado, da alegria ainda não vivida.

Pensemos nisso!

Sérgio Avelhaneda


Bibliografia: Palestra montada através de texto extraídos do site: www.momento.com.br

 



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